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Levantamento mostra uso de interesses em anúncios para o voto evangélico. – Foto: Reprodução IALevantamento mostra uso de interesses eLevantamento mostra uso de interesses em anúncios para o voto evangélico. – Foto: Reprodução IAm anúncios para
A disputa eleitoral de 2026 começa a revelar uma campanha cada vez mais personalizada nas redes sociais. Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab UFRJ) identificou 24 candidaturas ao Senado que utilizaram recursos de segmentação por interesses da Meta, responsável por plataformas como Facebook e Instagram. Juntas, elas fizeram 520 escolhas de categorias de direcionamento: 312 entre 12 candidaturas classificadas pelos pesquisadores como oposição ao governo federal e 208 entre 12 candidaturas da base governista.
O estudo, chamado “O eleitorado sob medida”, encontrou 294 categorias diferentes de segmentação, organizadas em 13 grandes temas. A lista mostra que a publicidade política já não se resume a apresentar o candidato para o maior número possível de pessoas. As campanhas podem indicar à plataforma interesses aos quais determinados usuários estão associados, aumentando a possibilidade de que determinados anúncios cheguem a esses públicos. Entre as categorias aparecem temas bastante distintos, como agronegócio, forças de segurança, família, educação, empregos, produtos da Apple e religião.
É nesse último grupo que aparece um dado particularmente relevante para entender o comportamento eleitoral brasileiro. A oposição fez 31 escolhas na macrocategoria “religião e teologia”, enquanto as candidaturas da base governista não registraram escolhas nesse grupo. Entre os interesses identificados estão referências como Bíblia e pastores. O dado, entretanto, precisa ser interpretado com cuidado: ele não significa que 31 campanhas tenham mirado os evangélicos, nem que todos os usuários alcançados sejam evangélicos. Trata-se do número de seleções de categorias de interesse feitas pelas campanhas. A própria lógica da ferramenta também não significa que somente pessoas daquele grupo receberão o anúncio.
O mesmo levantamento mostra que a estratégia não se restringiu à religião. A oposição fez 59 escolhas relacionadas ao agronegócio, contra 14 da base governista, e 48 ligadas a forças de segurança e militarismo, diante de 11 entre os governistas. A diferença sugere uma aposta maior em públicos temáticos e identitários por parte das candidaturas classificadas como oposição. Não é possível, porém, afirmar a partir desses números que essa estratégia tenha sido mais eficiente eleitoralmente. O estudo mede a escolha das categorias, não o resultado produzido por cada anúncio.
A religião aparece nesse cenário porque o eleitorado evangélico deixou de ser um segmento secundário da sociedade brasileira. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 47,4 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais se declararam evangélicos, o equivalente a 26,9% dessa população. Em 2010, eram 21,6%, o que representa um crescimento de 5,3 pontos percentuais em pouco mais de uma década.
Em uma eleição presidencial apertada, portanto, pequenas mudanças dentro desse grupo podem ter impacto relevante no resultado. Isso não significa que os evangélicos votem como um bloco único. O segmento é internamente diverso, reúne diferentes denominações, regiões, faixas de renda, gerações e posições políticas. Mas as pesquisas recentes mostram que existe, neste momento, uma vantagem consistente de candidatos de direita entre esses eleitores. Na pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada em 31 de agosto, por exemplo, Flávio Bolsonaro aparecia com 43% das intenções de voto entre evangélicos, contra 27% de Lula. No eleitorado geral, naquele mesmo levantamento, Lula tinha 39% e Flávio, 33%.
O Datafolha também encontrou uma diferença expressiva. Em um cenário de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente aparecia à frente no conjunto dos eleitores, por 47% a 43%, mas Flávio alcançava 62% entre os evangélicos, segundo o recorte divulgado em agosto. Esses números ajudam a explicar por que o segmento está no radar das campanhas. Não porque exista um “voto evangélico” perfeitamente uniforme, mas porque um eleitorado de quase metade da população de 10 anos ou mais, com comportamento político diferente da média nacional, representa um contingente eleitoral grande demais para ser ignorado.
A segmentação encontrada pelo NetLab revela justamente esse movimento. Em vez de falar com “o eleitor” de maneira genérica, as campanhas podem tentar construir mensagens para diferentes comunidades de interesse. Para uma candidatura, Bíblia ou pastores podem ser uma porta de entrada para um público religioso. Para outra, agronegócio pode funcionar como marcador de identidade. Segurança pública, família, educação, profissão e até produtos tecnológicos cumprem papel semelhante. A campanha digital passa, assim, a tratar o eleitorado como um mosaico de públicos sobrepostos.
Para os evangélicos, isso traz uma questão adicional. Ser identificado pela plataforma como alguém interessado em Bíblia não equivale a declarar uma religião, e muito menos significa concordar politicamente com determinado candidato. A ferramenta trabalha com associações de interesses feitas pela própria plataforma. Por isso, seria exagerado concluir que as 31 escolhas da oposição representam uma operação de “captura do voto evangélico”. O que os dados permitem dizer é que referências diretamente relacionadas ao universo religioso foram utilizadas como critérios de segmentação por parte de determinadas candidaturas.
O fenômeno também ajuda a compreender por que o voto evangélico se tornou uma das principais disputas da eleição de 2026. O crescimento numérico do segmento, combinado à sua presença organizada em igrejas, redes sociais e comunidades locais, transformou os evangélicos em um público eleitoral estratégico. Mas há uma diferença entre reconhecer seu peso e tratá-lo como um eleitorado homogêneo. A tentativa de conquistar esse grupo pode passar por pautas de costumes, família, liberdade religiosa, segurança, economia, assistência social ou mesmo pela linguagem religiosa. Não existe uma única chave capaz de abrir esse eleitorado.
É justamente por isso que o dado do NetLab talvez seja mais revelador do que parece à primeira vista. A eleição digital não está apenas dividindo brasileiros entre esquerda e direita. Ela está tentando encontrar microcomunidades dentro desses grandes campos políticos. A Bíblia pode ser uma delas. O agronegócio, outra. A segurança pública, outra. A tecnologia, outra. O eleitor evangélico pode, ao mesmo tempo, pertencer a várias dessas comunidades. E é nessa sobreposição de identidades que as campanhas tentam encontrar o caminho até o voto.
No fim, o levantamento não prova que candidatos estejam “dominando” o voto evangélico por meio das redes. Ele mostra algo mais concreto: as campanhas reconhecem que determinados interesses ajudam a localizar públicos específicos e que o universo religioso é uma dessas possibilidades. Em um país com 47,4 milhões de evangélicos, essa escolha deixa de ser detalhe de estratégia digital e passa a ser parte da disputa pelo centro do eleitorado brasileiro.
Fonte Comunhão



