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A fé move montanhas, mas não reorganiza sozinha circuitos emocionais que foram formados ao longo de anos. Raiva mal regulada, necessidade de controle e incapacidade de lidar com a frustração são padrões que nascem na infância, se consolidam no sistema nervoso e não desaparecem com uma oração, por mais sincera que ela seja.”
A especialista destaca que muitas vítimas permanecem em silêncio porque o agressor ocupa uma posição de respeito dentro da comunidade cristã.
“Quando ouço isso, sinto um aperto no peito. Porque essa mulher está sozinha num dos momentos mais difíceis da vida e ainda carrega nas costas o peso da imagem do marido, da família e da congregação. A verdadeira reputação de um líder não se constrói no palco, diante da igreja. Ela se revela no quarto, na cozinha, na forma como trata quem não pode cobrar nada dele. Um homem que agride em casa e lidera na frente não tem reputação a proteger, tem uma mentira a sustenEssa reflexão dialoga com o ensino bíblico de 1 Timóteo 3:4-5, que afirma que aquele que deseja liderar o povo de Deus deve primeiro governar bem a própria casa. Também encontra respaldo em Efésios 5:25, onde o apóstolo Paulo orienta os maridos a amarem suas esposas “assim como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela”. Em nenhum momento a Bíblia autoriza o uso da violência ou do autoritarismo como expressão de liderança.Violência aprendida dentro de casa
Outro aspecto importante destacado por Martha Zouain é o impacto da violência sobre os filhos. “As crianças não aprendem o que ouvem. Aprendem o que veem. O relacionamento dos pais é o primeiro modelo de amor que elas recebem, e é esse modelo que vai ecoar nos relacionamentos delas por toda a vida.”
Ela explica que o ambiente familiar influencia diretamente o desenvolvimento emocional. “Pais que discordam sem se agredir, que pedem desculpas quando erram, que dividem o peso da casa e da vida, que nomeiam o que sentem… isso forma o cérebro emocional de uma criança.”
Para ela, é necessário rever a maneira como meninos e meninas são educados. “Para os meninos, precisamos abandonar a educação emocional que ainda ensina que sentir é fraqueza e que controlar é amor. Isso não é criar um filho, é moldar um futuro agressor sem perceber. Para as meninas, precisamos ensiná-las, desde cedo, que amor que dói não é amor. Que limite é dignidade, não ingratidão. Que pedir ajuda é um ato de coAs declarações encontram respaldo em pesquisas nacionais e internacionais que mostram que crianças expostas à violência doméstica apresentam maior risco de reproduzir relacionamentos abusivos na vida adulta, seja como vítimas ou agressores.
O papel da igreja
Para Martha Zouain, as igrejas possuem uma oportunidade única de atuar na prevenção. “A igreja tem um papel importante em ensinar não somente a Palavra, mas os princípios e valores. Promover encontros de famílias onde esses temas sejam abordados, oferecer cursos que ensinem como ser pai, como ser mãe, como criar filhos dentro de princípios. O líder principal da igreja tem uma força fundamental. O que ele fala geralmente é verdade para os membros. Então é importante que o pastor pense nessas abordagens mais familiares e educativas.”
Ela também defende que as comunidades cristãs estejam preparadas para acolher vítimas de forma responsável. “As igrejas precisam criar espaços seguros, conduzidos por profissionais de saúde mental, onde essa mulher possa falar sem medo de julgamento e sem o risco de tudo chegar ao marido no culto seguinte. Pastores, líderes e voluntários precisam aprender a identificar sinais de violência doméstica e saber como agir, não com ‘ore e perdoe’ quando há risco de vida, mas com encaminhamentos sérios, profissionais e humanizados.”.



