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A morte de Helena, uma bebê de apenas 10 meses, vítima de violência sexual em Fortaleza (CE), provocou indignação em todo o país – Foto: Reprodução redes sociai
Por Cristiano Stefenoni
A morte de Helena, uma bebê de apenas 10 meses, vítima de violência sexual em Fortaleza (CE), provocou indignação em todo o país e trouxe novamente à tona uma das formas mais cruéis de violência contra crianças. O caso, investigado pela Polícia Civil do Ceará, evidencia uma realidade que especialistas combatem há anos: na maioria das vezes, o abuso infantil não acontece por acaso nem é cometido por um desconhecido.
A bebê foi levada a uma unidade de saúde de Fortaleza na última segunda-feira (14), já sem condições de ser salva. Durante o atendimento, médicos identificaram graves sinais de violência sexual e acionaram imediatamente as autoridades. A criança não resistiu aos ferimentos.
s/Cristiano Stefenoni
As investigações apontam que o crime ocorreu em um apartamento no bairro Dionísio Torres, na capital cearense. Dois homens, de 22 e 26 anos, foram presos em flagrante e autuados pelo crime de estupro de vulnerável com resultado morte. Um deles mantinha um relacionamento com a mãe da criança, enquanto o outro é primo do suspeito. Outras pessoas que estavam no imóvel também foram levadas à delegacia para prestar depoimento, mas, até o momento, não houve informações sobre novos indiciamentos.
O caso segue sendo investigado pela Delegacia de Combate à Exploração da Criança e do Adolescente (Dceca), que aguarda a conclusão dos laudos periciais para esclarecer a dinâmica completa do crime, identificar a participação individual dos suspeitos e verificar se houve eventual omissão de terceiros.
Embora episódios dessa gravidade despertem revolta e incredulidade, especialistas alertam que eles também devem servir para ampliar o debate sobre prevenção, identificação precoce dos sinais de abuso e fortalecimento da rede de proteção às crianças.
Para a delegada Sheila Aparecida de Mello Oliveira, deputada estadual em Minas Gerais, presidente da Frente Parlamentar “Juntos Contra a Pedofilia” e criadora do projeto “Sem Medo de Viver”, um dos maiores equívocos das famílias é acreditar que o risco está apenas em pessoas desconhecidas.
“Infelizmente, a maioria dos abusadores não se aproxima da criança pela força. Eles primeiro conquistam a confiança dos adultos. Parecem prestativos, educados, atenciosos e procuram fazer parte da rotina da família. É o que chamamos de grooming, um processo de manipulação em que o agressor cria um vínculo para ter acesso à vítima. Por isso, é um erro imaginar que o perigo está apenas em um estranho na rua. Muitas vezes, ele está em alguém conhecido, que conquistou a confiança da família”, explica.
Segundo a delegada, essa estratégia de manipulação faz com que muitos criminosos permaneçam durante meses ou até anos próximos da família antes de cometer qualquer violência, tornando a identificação do risco ainda mais difícil. Ela ressalta que a prevenção começa dentro de casa e passa, principalmente, pelas escolhas dos próprios adultos.
“O primeiro cuidado é ter muito critério sobre quem convive com a criança. Nem todo relacionamento adulto precisa significar acesso aos filhos. Além disso, é fundamental conversar com a criança sobre proteção do próprio corpo, ensinar que existem toques que não são aceitáveis e criar um ambiente em que ela saiba que pode contar qualquer situação sem medo de ser julgada. Também é importante observar mudanças de comportamento e evitar que a criança fique sozinha com pessoas que ainda não conquistaram, ao longo do tempo, a confiança da família”, orienta.
Embora a bebê do caso de Fortaleza tivesse apenas 10 meses e ainda não pudesse se comunicar verbalmente, Sheila lembra que a prevenção deve começar desde os primeiros anos de vida, especialmente por meio da vigilância constante dos responsáveis e da limitação do acesso de terceiros às crianças.
Cuidar das crianças é responsabilidade de todos
A delegada também defende que o enfrentamento da violência sexual infantil não pode ficar restrito às famílias ou às forças de segurança. Para ela, igrejas, escolas e demais instituições que convivem com crianças possuem responsabilidade direta na construção de ambientes seguros.
“A igreja, assim como a escola, os clubes e toda a comunidade, tem um papel essencial na rede de proteção da infância. Ela pode orientar famílias, promover informação, incentivar a denúncia e acolher vítimas. Mas também precisa investir na prevenção, capacitando líderes e voluntários para identificar sinais de violência e adotar protocolos de proteção. Proteger crianças é uma responsabilidade de toda a sociedade”, afirma.
Nos últimos anos, diversas denominações cristãs passaram a discutir protocolos internos de proteção infantil, treinamento de voluntários e mecanismos de denúncia, justamente para reduzir riscos e ampliar a conscientização entre líderes e famílias.
Fique atento aos sinais
Outro aspecto frequentemente ignorado, segundo a delegada, é a dificuldade em reconhecer os sinais deixados pelo abuso, principalmente quando a criança ainda não consegue verbalizar o que aconteceu.
“Não existe um sinal isolado que confirme uma violência, mas alguns comportamentos merecem atenção: mudanças bruscas de humor, medo excessivo de determinada pessoa, isolamento, regressão de comportamentos já superados, alterações no sono ou na alimentação, queda no rendimento escolar, conhecimento sobre sexualidade incompatível com a idade e resistência incomum em ficar com determinados adultos. Em crianças muito pequenas, também podem surgir choro intenso durante a troca de fraldas ou higiene, dificuldade para sentar e outras alterações físicas ou comportamentais. Diante de qualquer suspeita, o mais importante é acolher a criança, não pressioná-la e buscar imediatamente os órgãos competentes”, destaca.
Casos como o de Fortaleza mostram que a violência sexual contra crianças continua sendo um dos crimes mais difíceis de prevenir justamente porque, em grande parte das ocorrências, o agressor faz parte do círculo de convivência da vítima. Por isso, especialistas insistem que informação, diálogo, observação e denúncia continuam sendo as principais ferramentas para interromper ciclos de violência antes que novas tragédias aconteçam.
10 dicas para proteger as crianças
Tenha muito critério sobre quem convive com seus filhos.
Lembre-se de que nem todo relacionamento adulto deve significar acesso às crianças.
Desconfie de adultos que buscam rapidamente conquistar a confiança da família e da criança.
Ensine, desde cedo, sobre a proteção do próprio corpo e os limites do contato físico, de forma adequada à idade.
Crie um ambiente em que a criança se sinta segura para contar qualquer situação sem medo.
Observe mudanças repentinas de comportamento, humor, alimentação ou sono.
Fique atento ao medo excessivo de determinada pessoa ou à resistência incomum em permanecer com algum adulto.
Em crianças pequenas, observe choro intenso durante a troca de fraldas, dificuldade para sentar ou alterações físicas inexplicáveis.
Nunca pressione a criança diante de uma suspeita; acolha, escute e procure imediatamente os órgãos competentes.
Igrejas, escolas, clubes e demais instituições devem adotar protocolos de proteção infantil e capacitar seus líderes e voluntários.
Fonte Comunhão.



