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Eustáquio se transforma em dragão na obra de C.S. Lewis refletindo sua natureza humana caída – Foto: Upload Local/Gerada por IAPor Karina Garcia
O personagem Eustáquio Mísero, de As Crônicas de Nárnia, costuma despertar rejeição entre os leitores por causa do seu comportamento egoísta, arrogante e irresponsável. No entanto, um dos momentos centrais da obra de C.S. Lewis levanta uma reflexão entre cristãos e estudiosos da literatura cristã. A transformação do garoto em dragão e a incapacidade de voltar ao estado anterior apenas com esforço próprio estão interligados à mensagem do Evangelho sobre a natureza humana, o arrependimento e a ação de Cristo na vida das pessoas.Quando o dragão revela quem Eustáquio é
Nas primeiras aparições em “A Viagem do Peregrino da Alvorada”, Eustáquio é descrito como um menino desagradável, que reclama de tudo, pensa apenas em si mesmo e trata os outros com desprezo. Seu comportamento faz com que praticamente ninguém queira sua companhia. Ao longo da história, essa postura acaba tendo consequências quando, tomado pela ganância, ele encontra um tesouro e adormece sobre ele. Ao despertar, percebe que se transformou em um dragão.Na obra de Lewis, essa mudança física não surge como um castigo aleatório. Ela apenas torna visível aquilo que o personagem já carregava dentro de si. O exterior só passa a refletir sua condição moral e é esse detalhe que costuma aproximar a história de diversas passagens bíblicas que falam sobre o coração humano.

A Bíblia afirma que a origem do problema do ser humano não está apenas nas atitudes, mas na própria natureza humana. Em Jeremias 17:9, o profeta escreve que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas”. Já em Marcos 7:21 a 23 Jesus declara que os maus pensamentos, a inveja, o orgulho e outras práticas procedem do interior das pessoas. Nessas passagens, o foco não está apenas no comportamento, mas naquilo que produz esse comportamento.A pele que ninguém tira sozinho
Depois de perceber a própria condição, Eustáquio tenta resolver o problema sozinho. Em uma das cenas mais conhecidas do livro, ele começa a arrancar a própria pele de dragão. A cada tentativa, uma nova camada aparece.
Esse episódio costuma ser associado ao ensino bíblico de que o ser humano não consegue produzir sua própria regeneração apenas por esforço pessoal. Em Efésios 2:8 e 9, o apóstolo Paulo afirma que a salvação é fruto da graça de Deus e não das obras humanas. Em João 15:5, Jesus declara que “sem mim nada podeis fazer”. As duas passagens apontam para a limitação da capacidade humana diante da necessidade de transformação espiritual.
É então que o leão Aslam entra na história. Ao perceber que Eustáquio não conseguirá retirar sozinho aquela pele, o leão diz que fará isso por ele. O personagem relata que o processo foi doloroso. C.S Lewis descreve que as garras de Aslam penetraram muito mais fundo do que Eustáquio imaginava, mas somente depois desse momento ele voltou à forma humana.

A cena costuma ser vista como uma das imagens mais conhecidas da graça na literatura de Lewis., pois enfatiza que o processo não acontece sem dor. A mudança exige que algo antigo seja retirado para que uma nova condição apareça.Personagens que viveram restauração
A própria Bíblia utiliza imagens semelhantes ao tratar da transformação promovida por Deus. Em Ezequiel 36:26, o Senhor promete retirar o coração de pedra e dar um coração de carne ao seu povo. Em 2 Coríntios 5:17, Paulo escreve que “se alguém está em Cristo, nova criatura é”. Já em Romanos 12:2, o apóstolo orienta os cristãos a não se conformarem com este século, mas serem transformados pela renovação da mente.
Outro episódio bíblico que se aproxima da experiência de Eustáquio é o encontro de Jesus com Pedro. O discípulo afirmou que jamais negaria Cristo, mas poucas horas depois fez exatamente isso, conforme registrado em Lucas 22:54 a 62. O arrependimento veio apenas quando Pedro percebeu quem realmente era diante de Jesus. Mais tarde, em João 21, Cristo restaura aquele mesmo discípulo que havia fracassado.
A história de Saulo de Tarso também oferece um paralelo importante. Convencido de que estava fazendo a vontade de Deus, ele perseguia cristãos até encontrar Jesus no caminho de Damasco, conforme Atos 9. A mudança não nasceu de uma revisão pessoal de comportamento. Ela começou quando Cristo interrompeu seu caminho e confrontou sua realidade.
A experiência de Eustáquio também costuma levar muitos leitores a reverem a forma como enxergam outros personagens de Nárnia. É comum admirar a confiança de Lúcia, que permanece firme mesmo quando ninguém acredita nela, ou criticar a incredulidade de Susana nos livros finais da série. Também é frequente condenar a traição de Edmundo no início da história.

Entretanto, a própria Bíblia registra personagens marcados por falhas antes de experimentarem restauração. Abraão mentiu, Moisés matou um homem, Jonas fugiu da missão que recebeu, Pedro negou Jesus e Tomé recusou acreditar na ressurreição antes de ver Cristo pessoalmente.
Por isso, a transformação de Eustáquio costuma ser apontada como um dos momentos de maior simbolismo em As Crônicas de Nárnia. O personagem deixa de representar apenas um menino difícil de suportar e passa a ser relacionado à condição humana descrita na bíblia.
Antes de desejar a coragem de Lúcia ou apontar os erros de Edmundo, a história convida o leitor a reconhecer a própria necessidade da graça. Assim como Eustáquio não conseguiu retirar sozinho a pele que o cobria, o Evangelho anuncia que a transformação começa quando Cristo faz aquilo que ninguém consegue realizar por si mesmo.Assista ao trailer do filme “As Crônicas de Nárnia A Viagem do Peregrino da Alvorada” no youtube:
Fonte Comunhão.



