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A A Bíblia reconhece que existe “tempo para todo propósito debaixo do céu” – Foto: FreePikPor Patricia Scott
Em uma sociedade marcada pela pressa e pela busca constante por produtividade, o luto tem sido tratado como um sentimento que precisa ser superado o quanto antes. Para o psicólogo David Zuccolotto, essa expectativa contraria tanto a experiência humana quanto os princípios apresentados nas Escrituras.Baseando sua reflexão em Eclesiastes 3, o especialista afirma que a Bíblia reconhece que existe “tempo para todo propósito debaixo do céu”, incluindo o tempo de chorar, lamentar e enfrentar a perda. “Vivemos em uma cultura que quase não tem uma noção de tempo quando se trata de luto. Há apenas a urgência para processá-lo rapidamente e voltar à rotina. Mas o luto não segue os nossos cronogramas”, afirma.Segundo Zuccolotto, o conhecido trecho bíblico não apenas oferece conforto aos enlutados, mas também desafia o ser humano a respeitar os ciclos estabelecidos por Deus. “A grande questão não é saber que existe tempo para chorar e tempo para rir. A pergunta é se estamos dispostos a conceder a cada estação o tempo que ela merece”, destaca.
O psicólogo observa que, na prática, muitas pessoas tentam encaixar o luto entre compromissos diários, trabalho e responsabilidades familiares. Para ele, essa postura frequentemente impede que a dor seja processada de forma saudável.
“Quando o luto é constantemente adiado, ele não desaparece. Costuma reaparecer em forma de irritabilidade, isolamento, tristeza persistente ou um vazio que a pessoa nem sempre consegue explicar”, explica.
Embora a ideia de reservar momentos específicos para lidar com a dor possa parecer excessivamente técnica, Zuccolotto afirma que a proposta não é controlar o sofrimento, mas dar a ele a importância que merece. “Não se trata de transformar o luto em uma tarefa da agenda, mas de honrar a pessoa que partiu. Algumas perdas são profundas demais para serem vividas apenas nos minutos livres entre um compromisso e outro.”Como exemplo, ele sugere que familiares reservem um tempo para revisitar fotografias, recordar histórias, organizar objetos de quem faleceu e permitir-se chorar sem interrupções. “Isso não é uma técnica psicológica. É o amor se recusando a ser apressado.”
O especialista também destaca outro ensinamento de Eclesiastes, quando o autor afirma que “é melhor ir à casa onde há luto do que à casa onde há festa”. Para Zuccolotto, o texto revela que a dor possui um papel transformador na vida humana.
Segundo ele, estudos sobre crescimento pós-traumático mostram que muitas pessoas, após enfrentarem grandes perdas, passam a enxergar a vida com mais clareza, fortalecem seus relacionamentos e desenvolvem maior empatia. “O sofrimento não deve ser romantizado, mas, quando enfrentado com honestidade, costuma produzir algo que a prosperidade dificilmente oferece: sabedoria.”
Para explicar como o luto evolui ao longo dos anos, Zuccolotto utiliza a metáfora de uma pintura. “O luto é como tinta lançada sobre uma tela. No início, parece cobrir toda a vida. Com o tempo, a tela continua crescendo. A perda permanece, mas novas experiências, relacionamentos e momentos de graça ampliam o quadro. A dor não desaparece; ela passa a fazer parte da história.”Na avaliação do psicólogo, a expectativa de “voltar ao normal” pode gerar ainda mais sofrimento para quem perdeu alguém. “Você não está fracassando porque ainda sente saudade. Está apenas continuando a pintar a sua história.”
Ao concluir sua reflexão, Zuccolotto reforça que o luto não deve ser encarado como um obstáculo a ser eliminado, mas como uma etapa da vida prevista nas Escrituras. “O luto não é um problema que precisa ser resolvido rapidamente. É uma estação determinada por Deus. Dar tempo à dor é também uma forma de honrar o amor e a memória daqueles que fizeram parte da nossa história.”
Fonte Comunhão.



