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Foto: Upload Local/Cristiano StefenoniPor Cristiano Stefenoni
A gravidez e os primeiros meses após o parto representam um período de maior vulnerabilidade para mulheres que vivem relacionamentos abusivos. É o que revela um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), que identificou um aumento expressivo no risco de violência psicológica praticada por parceiros ou ex-parceiros durante essa fase da vida.
Publicado na revista científica Journal of Interpersonal Violence, o trabalho analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os pesquisadores avaliaram as respostas de 26.006 mulheres brasileiras entre 18 e 49 anos, divididas entre aquelas que nunca tiveram filhos, gestantes ou mães de bebês com até 18 meses e mulheres com filhos mais velhos.Os resultados mostram que gestantes e mulheres no período de até 18 meses após o parto apresentam 94% mais chances de sofrer violência psicológica em comparação com mulheres que nunca tiveram filhos. Entre aquelas com filhos acima de 18 meses, o risco também permanece elevado, sendo 60% maior do que entre mulheres sem filhos.
A pesquisa observou que a gravidez e o puerpério não aumentam de forma significativa os episódios de violência física ou sexual. O comportamento abusivo, porém, tende a se concentrar em agressões emocionais e verbais, como xingamentos, humilhações, ameaças, destruição de objetos pessoais e intimidações por meio de celulares e redes sociais. Na população analisada, 7,9% das mulheres relataram ter sofrido violência psicológica, enquanto 3,6% informaram episódios de violência física ou sexual.Segundo os pesquisadores, fatores como baixa escolaridade e menor renda também estão associados ao aumento da vulnerabilidade. O estudo reforça que a violência psicológica, embora muitas vezes invisível, provoca consequências profundas para a saúde física e mental das vítimas, podendo desencadear ansiedade, depressão, depressão pós-parto e até ideação suicida.
Os impactos vão além da mulher. De acordo com os autores, a exposição à violência durante a gestação pode comprometer o desenvolvimento do bebê, aumentar o risco de parto prematuro e favorecer problemas emocionais e comportamentais na infância. Por isso, os pesquisadores defendem que o pré-natal e o acompanhamento no pós-parto incluam estratégias para identificar precocemente situações de abuso e encaminhar as vítimas para serviços especializados.Os autores concluem que os resultados reforçam a necessidade de ampliar as políticas públicas de prevenção e de capacitar profissionais da saúde para reconhecer sinais de violência psicológica durante a gravidez e o pós-parto. Para eles, identificar esse tipo de abuso ainda nos atendimentos de rotina pode ser decisivo para proteger mães e crianças e interromper ciclos de violência que costumam permanecer ocultos.



