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Sóstenes x Otoni: as muitas faces da direita no país

Divisões entre líderes evangélicos moldam o futuro político do Brasil. – Foto: Montagem/ Imagem redes sociaisPor Cristiano Stefenoni

Poucos segmentos influenciam tanto a política brasileira quanto os evangélicos. Representando cerca de um terço da população e com crescente presença nas urnas, nas igrejas e no Congresso Nacional, esse eleitorado tornou-se peça central nas estratégias de praticamente todos os partidos. Mas, ao contrário do que muitas vezes se imagina, o universo evangélico está longe de ser homogêneo. A polarização que divide o país também atravessa os templos, as lideranças religiosas e as bancadas parlamentares.

Se até poucos anos a discussão se limitava à disputa entre direita e esquerda, hoje uma nova divisão ganha força dentro do próprio campo conservador. De um lado, está a direita fortemente identificada com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que consolidou uma base eleitoral fiel, especialmente entre os evangélicos. Do outro, surgem lideranças que também defendem valores conservadores, mas criticam o personalismo do bolsonarismo e defendem uma atuação mais independente.Essa diferença ficou evidente nesta reportagem especial de Comunhão, que reuniu duas das principais vozes evangélicas da Câmara dos Deputados. Ambos são pastores, foram eleitos pelo Rio de Janeiro e defendem pautas conservadoras ligadas à família, à liberdade religiosa e aos princípios cristãos. Ainda assim, enxergam de maneira profundamente diferente o futuro da direita brasileira.

De um lado está Sóstenes Cavalcante, líder do Partido Liberal (PL) na Câmara, aliado histórico de Jair Bolsonaro e do pastor Silas Malafaia. Considerado uma das principais lideranças conservadoras do Congresso, Sóstenes afirma que a direita brasileira se tornou inseparável da liderança do ex-presidente.

No lado oposto está Otoni de Paula, deputado federal pelo PSD. Também pastor evangélico, ele rompeu politicamente com Bolsonaro nos últimos anos e passou a defender uma postura independente da bancada evangélica, criticando aquilo que chama de captura ideológica da igreja pelo bolsonarismo.

A seguir, ambos respondem às mesmas perguntas e apresentam visões opostas sobre o presente e o futuro da direita, da política e da participação dos evangélicos no Brasil.

DIREITA X DIREITA BOLSONARISTA

A primeira discussão revela talvez a maior divergência existente hoje dentro do campo conservador: existe espaço para uma direita que não seja liderada por Jair Bolsonaro?

Para Sóstenes Cavalcante, a resposta é não. Na avaliação do líder do PL, Bolsonaro não apenas reorganizou a direita brasileira como se tornou seu principal e incontestável representante.

Ele explica que desde a redemocratização do Brasil, o movimento direita e esquerda surgiu de forma muito tímida. Os antigos partidos da época do regime militar, Arena e MDB passaram por diversas transformações. Durante muitos anos, a direita ficou concentrada no PFL, que virou DEM e depois União Brasil, enquanto o PSDB representava uma direita moderada durante os governos do PT.Entretanto, com a chegada do presidente Bolsonaro em 2018, ambos os partidos cometeram, para mim, um erro histórico. Resolveram caminhar para o centro acreditando que a bandeira da direita não venceria eleições majoritárias. O advento de Bolsonaro não foi apenas partidário, mas um movimento ideológico personificado na figura dele. Hoje a direita possui poucas variações ideológicas e tornou-se um movimento consolidado, com cerca de 35% de apoio da população brasileira”, justifica Sóstenes, que emenda:Ele é e será sempre o maior líder da direita no Brasil. Não existe condição de termos um movimento de direita que não passe pela liderança do presidente Bolsonaro.”

Já Otoni de Paula faz uma leitura completamente diferente. Para ele, a direita existe independentemente do bolsonarismo e hoje estaria “sequestrada” por um único grupo político.

“Eu sempre afirmo que a direita é maior do que o bolsonarismo, até porque veio antes. O que nós temos hoje é uma direita sequestrada. A verdadeira direita está sequestrada pelo bolsonarismo”, acredita Otoni.

Segundo o parlamentar, isso acontece por duas razões: Primeiro, porque ainda não existe nenhuma figura da direita com relevância semelhante à de Bolsonaro; segundo, porque também não existe nenhuma liderança que tenha coragem de romper com o bolsonarismo.

“Quem romper sabe que enfrentará a máquina de triturar reputações bolsonarista. Essa máquina é usada justamente para manter todos dentro desse sequestro político”, critica Otoni.

EXISTE EVANGÉLICO DE ESQUERDA?

Poucos temas provocam tanta controvérsia quanto a relação entre fé e ideologia. Nos últimos anos tornou-se comum ouvir que “não existe evangélico de esquerda”. Mas essa afirmação também divide profundamente as lideranças religiosas.Sóstenes sustenta que o problema não está na fé dos evangélicos, mas nos próprios partidos de esquerda. O deputado afirma que teve o cuidado de ler todos os estatutos de todos os partidos de esquerda do Brasil para chegar a sua conclusão.

“Infelizmente, quando você participa de um partido, precisa seguir aquilo que o estatuto determina. Diferentemente dos partidos de esquerda europeus e até dos americanos, os partidos brasileiros inserem conteúdos ideológicos em seus estatutos. O pior deles é o Cidadania. Existe uma carga ideológica que afronta os valores cristãos. Enquanto os partidos de esquerda não fizerem uma autocrítica e mudarem seus estatutos, na minha avaliação é totalmente antagônico um evangélico se dizer de esquerda no Brasil”, deduz Sóstenes.

No caso de Otoni, ele rebate diretamente esse entendimento. Segundo ele, reduzir o cristianismo a uma posição ideológica é um erro teológico. “Em primeiro lugar, a gente precisa compreender que não existe evangélico ladrão, pelo menos não deveria existir. Também não deveria existir evangélico corrupto. Agora, ele ter uma ideologia, seja de direita ou de esquerda, eu não vejo nenhum problema”, afirma.

Para o deputado, foi do bolsonarismo para cá que surgiu a ideia de que o evangélico não pode ser alguém de esquerda. “Foi também a partir daí que Deus passou a caber dentro de uma caixinha ideológica. Deus virou de direita e o diabo ficou na esquerda. Esse é o grande motivo de termos hoje uma igreja sequestrada ideologicamente, confundindo evangelho com ideologias humanas”, justifica.Otoni lembra ainda que o verdaderio cristão vive por princípios e valores, ou seja, se existe alguma pauta da esquerda que ofende esses princípios, basta não abraçá-la. Da mesma forma, existem pautas da extrema direita que também afrontam o evangelho.

“Racismo, misoginia, violência, a ideia de que bandido bom é bandido morto ou discursos contra nordestinos não pertencem ao evangelho. Assim como aborto ou casamento entre pessoas do mesmo sexo também não fazem parte daquilo que eu defendo. Todos os extremos possuem problemas. O evangelho deve estar acima das ideologias. Dizer que Deus pertence a um lado político é uma infantilidade teológica”, pontua.

MICHELLE, FLÁVIO E O FUTURO DO BOLSONARISMO

As recentes especulações envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro colocaram em evidência uma discussão sobre o futuro da liderança do principal grupo político da direita brasileira. Divergências públicas entre integrantes da família repercutiram nacionalmente e alimentaram análises sobre a sucessão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Fonte Comunhão.




13/07/2026 – Net 3 Gospel

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