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Estudo da Unicamp revela impacto do estigma do peso na saúde mental das mulheres. – Foto: Reprodução IAPor Cristiano Stefenoni
A busca pelo chamado “corpo ideal” vai muito além da estética e pode trazer consequências profundas para a saúde física e emocional das mulheres. É o que revela um estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que identificou como o estigma social relacionado ao peso interfere na autoestima, nos hábitos cotidianos e até na forma como as mulheres acessam os serviços de saúde.
A pesquisa foi realizada no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism) e publicada na edição latino-americana da revista científica The Lancet Regional Health – Americas. O trabalho, conduzido pelo sociólogo guatemalteco Miguel Contreras, propõe uma mudança de perspectiva sobre o excesso de peso.Em vez de analisar apenas os fatores biológicos da obesidade, o pesquisador investigou como os padrões sociais de beleza moldam a relação das mulheres com o próprio corpo. A conclusão é que o preconceito em torno do peso deve ser reconhecido como um determinante social da saúde, capaz de gerar impactos psicológicos e comportamentais que vão muito além da balança.
A pesquisa foi realizada entre fevereiro e novembro de 2024 no Ambulatório de Planejamento Familiar do Caism. Utilizando entrevistas individuais e grupos de discussão, os pesquisadores ouviram mulheres de diferentes perfis e identificaram um padrão recorrente: muitas convivem diariamente com sentimentos de culpa, vergonha e inadequação por não corresponderem ao padrão corporal valorizado pela sociedade. Até atividades simples, como escolher uma roupa, fazer uma refeição em público ou sentar-se em determinados lugares, tornaram-se experiências marcadas pelo receio do julgamento alheio.Os relatos também evidenciaram que a magreza continua sendo amplamente associada a características consideradas positivas, como disciplina, autocontrole, sucesso e boa saúde. Em contrapartida, mulheres com corpos maiores frequentemente são vistas como preguiçosas, desleixadas ou incapazes de cuidar de si mesmas.
Segundo o estudo, essa associação não apenas reforça preconceitos sociais, mas também faz com que muitas mulheres internalizem essas crenças, passando a vigiar constantemente a própria aparência e a sentir que seu valor pessoal depende do número exibido na balança.Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é que o estigma pode afastar mulheres dos serviços de saúde. O medo de sofrer comentários constrangedores ou de ter qualquer problema atribuído exclusivamente ao peso faz com que algumas deixem de procurar atendimento médico, adiem exames preventivos ou interrompam tratamentos.
Esse comportamento pode agravar doenças e comprometer o acompanhamento adequado da saúde, criando um ciclo em que o preconceito gera consequências concretas para o bem-estar.
Os autores também questionam a utilização isolada do Índice de Massa Corporal (IMC) como principal indicador de saúde. Para eles, focar apenas na perda de peso e em recomendações genéricas sobre mudança de estilo de vida desconsidera fatores sociais, econômicos e emocionais que influenciam diretamente os hábitos e a qualidade de vida das pessoas. A pesquisa defende uma abordagem mais ampla, que considere o contexto de vida das pacientes e combata a discriminação nos ambientes de atendimento.
Embora o estudo tenha sido realizado com um grupo específico de mulheres atendidas em um hospital universitário, seus resultados dialogam com uma realidade vivida por milhões de brasileiras. Em um país onde os padrões estéticos são constantemente reforçados pela publicidade, pelas redes sociais e pela cultura da aparência, os pesquisadores defendem que combater a gordofobia e promover um cuidado em saúde livre de julgamentos são medidas essenciais para melhorar a qualidade de vida das mulheres. A principal mensagem do estudo é clara: promover saúde também significa enfrentar os preconceitos que adoecem silenciosamente.
Fonte Comunhão



