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Na simplicidade do gesto e na escuta sem julgamento, a igreja pode se tornar novamente um abrigo para os corações feridos – Foto: FreepikPor Patrícia Esteves
Há dores que não se manifestam no corpo, mas pesam na alma e nem sempre encontram espaço nas igrejas para serem nomeadas. Crises emocionais, esgotamento espiritual e cicatrizes deixadas por vivências religiosas traumáticas, crescem entre comunidades cristãs com o clamor por uma espiritualidade que acolhe antes de exigir. Mais do que uma estratégia pastoral, o acolhimento tem se revelado um testemunho necessário da graça que precede qualquer transformação verdadeira.
Se há um traço recorrente nos relatos de quem busca apoio espiritual, é a ausência de escuta genuína. Pastora Patrícia Cunha, do Ministério Recomeços, em Xaxim /SC, defende que tornar a espiritualidade um ambiente de acolhimento é, antes de tudo, criar um espaço seguro. “Onde a pessoa possa falar das dores, dos problemas, onde as pessoas possam chegar realmente como estão, sem máscara ou medo de rejeição”, resume a pastora.A experiência pastoral em meio a realidades quebradas exige, segundo Patrícia, mais do que conhecimento bíblico, exige presença e compaixão. “Tornar a espiritualidade mais acolhedora é viver o Evangelho como Cristo ensinou e viveu. Ele tocava o leproso, comia com os pecadores, ouvia aqueles que os outros queriam calar. Mas Ele permitia que essas pessoas falassem”, lembra Patrícia.

Pastor Israel Alves, da Assembleia de Deus, reforça essa ideia ao dizer que a igreja não pode se tornar um espaço de punição. “A igreja não é um tribunal, a igreja é uma santa casa de misericórdia”, afirma. Para ele, esse é um tempo decisivo em que comunidades de fé precisam se reestruturar emocional e espiritualmente. “Nunca as pessoas estiveram tão solitárias, tão tristes, tão sem alguém que lhes tendesse a mão”, lamenta.
Segundo a pesquisa “Saúde Mental dos Cristãos durante a Pandemia”, realizada pelo Barna Group (EUA) e replicada em parte no Brasil por institutos independentes como a Lifeway, uma em cada três pessoas ligadas à fé cristã relata sentimentos persistentes de ansiedade e exaustão espiritual. No cotidiano das igrejas, isso se reflete em fiéis que se afastam não por rebeldia, mas por esgotamento.São pessoas que estão exaustas, principalmente por dentro (…) Estão cansadas, tanto homens quanto mulheres, sobrecarregadas, ansiosas, muitas vezes feridas por uma religiosidade tóxica, por um sistema corrompido. Até crentes de longa data, que nunca foram verdadeiramente ouvidos, apenas receberam regras e mais regras impostas”, explica Patrícia Cunha.
O que elas procuram? Um lugar onde, enfim, possam respirar. Mas não qualquer lugar. Um espaço que acolha suas perguntas, dores e ambiguidades sem apressar a solução. “Se houvesse menos pressa em corrigir, haveria mais espaço para caminhar junto”, acrescenta a pastora.
Na tentativa de ajudar, líderes muitas vezes se veem tropeçando na linha tênue entre exortação e julgamento. O problema, aponta Patrícia, não está no conteúdo da correção, mas na postura de quem a transmite. “Existe uma diferença entre corrigir e julgar, e essa diferença está no coração de quem fala. Quando há compaixão, há vínculo, e a verdade pode ser dita com ternura”, afirma ela.
Pastor Israel endossa. “Até a disciplina é uma forma de cuidar. Você não pode ter disciplina como uma forma de punir, mas como uma forma de colocar a pessoa na linha certa”, diz. Para ele, a igreja deve ser um espaço de cura para todos, do jovem em crise à mulher em sofrimento silencioso, do empresário quebrado ao viciado em busca de recomeço. “Acolher é cuidar. Nós somos cuidadores”, coloca o Israel.
O testemunho que mais marcou Patrícia Cunha nasceu no improviso da obediência. Desde 2014, ela enviava mensagens diárias de encorajamento a contatos da igreja. Um desses torpedos chegou a uma mulher que, com uma sacola nas mãos, estava prestes a tirar a própria vida. “Ela me disse: ‘Eu ia tirar minha vida’. Mas na hora chegou uma mensagem minha dizendo: ‘Você é uma filha amada. Deus não te despreza. Deus te ama’”, compartilha a pastora.
A mulher correu até a igreja, entregou as cordas, orou com a pastora e, anos depois, reconstruiu sua vida. “Ela é uma nova pessoa porque houve acolhimento”, diz Patrícia.
Liderar com firmeza não significa endurecer. Significa amar com profundidade. “Ter autoridade espiritual não é gritar do altar verdades. Isso não é autoridade. O líder precisa viver com amor, liderar com firmeza, pastorear com cajado e com óleo: ter direção e cuidado ao mesmo tempo”, pontua Patrícia.
Na visão de Israel Alves, o acolhimento pastoral precisa ser ativo e intencional. Ele propõe comissões de acolhimento, grupos de visitação e uma presença sensível da igreja no cotidiano das pessoas. “Acolhimento é abençoar, é ser abençoador. É uma igreja que marca presença na cidade”, declara.
A espiritualidade machucada nem sempre se cura com teologia, mas com abraço. “O coração de Deus não é frio. Ele não se parece com a frieza e com as cobranças de quem te feriu. Ele nos conduz à mudança, mas nos ama acima de qualquer coisa”, diz Patrícia.
A igreja, nesse sentido, não pode ser confundida com os mecanismos que feriram. “Essa pessoa precisa voltar, não para uma instituição, não para um sistema, mas para os braços do Pai”, afirma a pastora.
Israel é ainda mais direto. “Mesmo disciplinado, precisa ser amado, trazer de volta, cuidar dele”. Para ele, até o homem mais orgulhoso, o mais falido, o mais ferido, todos têm um lugar. “Porque quem precisa de médico são os doentes”, afirma.
A imagem de uma igreja acolhedora está longe de estruturas perfeitas ou cultos impecáveis. É o lugar onde o pecador encontra espaço antes da mudança, onde o líder escuta antes de ensinar, onde o Evangelho é vivido com braços abertos e não com dedos apontados. Como disse Patrícia Cunha, “às vezes, somos rápidos em julgar, mas as pessoas precisam de espaço para serem ouvidas, sem pressa, sem rótulos”, conclui.
Fonte Comunhão



