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Quando amar significa soltar as mãos

Na paternidade, caminhar juntos é confiar no caminho e no Deus que o sustenta – Foto: FreepikPor Patrícia Esteves

A narrativa de Abraão e Isaque, em Gênesis 22, se apresenta como um espelho que desafia a ideia de paternidade apenas como força e proteção. É a história de um homem que caminha lado a lado com o filho, obedecendo a Deus, mas sentindo na própria pele a vulnerabilidade de conduzir alguém que ama a um destino incerto. Essa tensão entre liderança e fragilidade atravessa os séculos e ainda ressoa no coração de pais que buscam educar, orientar e, inevitavelmente, liberar seus filhos para viverem a própria jornada.

O estudioso Jack Levison lembra de uma cena com seu filho Jeremy, pequeno, concentrado em construir mundos de Lego na sala de estar. Ele o observava de costas, notando como a luz atravessava suas orelhas. “As orelhinhas de Jeremy eram, refleti, frágeis. Pareciam finas como papel, como bainhas, transparentes. Não delicadas. Frágeis”, compartilha.Essa imagem se conectou à história bíblica. “Nada frágil, Isaac e Abraão são resolutos, ambos acordando cedo, caminhando por dias e escalando uma montanha. Nada delicado, não há nada de delicado em carregar uma braçada de madeira montanha acima. Mas é frágil”, reflete. Para Levison, essa fragilidade não está na força física, mas no risco iminente de perder o que é mais precioso.Na cena de Gênesis, o texto repete duas vezes que pai e filho seguiram juntos. “Vê-los partir juntos sugere, para mim pelo menos, toda a fragilidade que posso suportar”, afirma Levison. É o retrato de uma paternidade que se constrói no caminho, no silêncio compartilhado e na disposição de estar ao lado, mesmo quando não há garantias de final feliz, segundo ele.

Ser pai, no contexto cristão, envolve essa dupla missão de proteger e preparar para a autonomia. Há momentos em que guiar significa segurar firme; em outros, significa confiar o filho às próprias escolhas, experiências e, para quem crê, aos cuidados de Deus. É uma liderança que não se mede apenas pela autoridade, mas também pela capacidade de soltar as mãos no tempo certo.

A entrega que transforma

Para pais de hoje, a história de Abraão e Isaque oferece o lembrete, de acordo com Levinson, de que paternidade não é apenas prover ou proteger, mas formar corações que possam caminhar sozinhos. Essa entrega exige coragem, mas também a aceitação de que os filhos viverão alegrias e dores que não caberão sob o controle paterno. A fragilidade não é sinal de fraqueza, é a prova de que amar implica risco.Ao lembrar de Jeremy e de Abraão, Levison revela que a fragilidade não destrói a fé nem a relação pai e filho, mas as torna mais reais. Entre a madeira carregada montanha acima e o retorno silencioso após a intervenção divina, há segundo o teólogo um aprendizado que ecoa até hoje de um pai de fé não se define apenas pelo que segura, mas pelo que é capaz de entregar.

Fonte Comunhão




07/07/2026 – Net 3 Gospel

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