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Pais que abraçam oferecem segurança, pois o contato físico ajuda crianças a sentirem que não estão sozinhas diante da ansiedade ou do trauma – Foto: FreepikPor Patrícia Esteves
A ansiedade infantil e os traumas na infância não são desafios isolados, eles entram em rede com o desenvolvimento cerebral, com o ambiente familiar, com a vivência espiritual e com apoios práticos. Pesquisas recentes no Brasil, realizadas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade de Bath, no Reino Unido, confirmam que tais realidades não são raras nem superficiais. Mais de 80% dos adolescentes brasileiros vivenciaram pelo menos um evento traumático até os 18 anos; e cerca de 30% dos transtornos psiquiátricos nessa faixa etária estão associados a esses traumas.Diante disso pais e mães podem precisar de ferramentas práticas para aliviar medos paralisantes nos filhos, como por exemplo para vencer o temor de separação, a angústia de enfrentar ambientes sociais ou de não encontrar um lugar seguro.
Para a assistente social clínica Mollie Pinkham, “tanto a ansiedade quanto o trauma provocam o mesmo tipo de resposta de sobrevivência, que não apenas limita o acesso à parte superior do cérebro, mas também cria respostas fisiológicas de insegurança no corpo”.
O cérebro humano possui diferentes níveis de processamento emocional e cognitivo, conforme explica Mollie. A amígdala, parte do cérebro inferior, monitora ameaças, reais ou percebidas, e pode disparar respostas de luta, fuga ou congelamento mesmo quando não há perigo imediato.
Ela explica que “quando uma pessoa se sente segura, tem fácil acesso ao cérebro superior. Os indivíduos são capazes de pensar logicamente, expressar emoções, tomar decisões informadas, resolver problemas e encontrar soluções criativas. O cérebro funciona a partir dessa base segura de segurança”.No entanto, quando há ameaça real ou imaginária, essa área racional se torna inacessível. Segundo ela, “isso pode levar a respostas emocionais, a agir impulsivamente e a se sentir preso em um estado de hiperexcitação”.Crianças, cujo cérebro superior ainda está em desenvolvimento, ficam ainda mais vulneráveis a esses bloqueios. “Se isso for agravado por trauma, medo ou ansiedade, pode parecer impossível para a criança se regular e sair de uma resposta de luta ou fuga”, reforça a especialista.
Um levantamento realizado pela pesquisa “Ansiedade infantil das crianças brasileiras um ano após a pandemia COVID-19”, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Minas Gerais com 906 crianças entre 6 e 12 anos mostrou que, um ano após o início da pandemia de COVID-19, a prevalência de ansiedade chegava a quase 35% quando consideradas condições de estresse adicionais como doença crônica, redução de renda familiar ou impacto direto da pandemia.
Outro estudo em Pelotas, no Rio Grande do Sul, acompanhou mais de quatro mil jovens. Ele mostrou que 81% haviam passado por pelo menos um evento traumático na infância e que aproximadamente um terço dos transtornos mentais diagnosticados aos 18 anos estavam relacionados a essa exposição.Segundo a pesquisa, também se observa que, recentemente, os registros de atendimentos em saúde mental para ansiedade entre crianças e adolescentes superaram os de adultos no sistema público.
Segundo Mollie, “usar abordagens de baixo para cima para lidar com a ansiedade e o medo pode, muitas vezes, ser uma abordagem mais eficaz”. Essas práticas somáticas se concentram no corpo e na restauração da sensação de segurança antes que se tente raciocinar.
Ela alerta que “o desejo de racionalizar ou usar a lógica com uma criança em momentos de medo irracional pode parecer natural. Mas, se primeiro ajudarmos nosso filho a alcançar um lugar seguro e de conexão com seu corpo, ele será capaz de acessar a parte superior do cérebro e se juntar aos pais em um pensamento mais racional e na resolução criativa de problemas”.
Caça ao tesouro de aterramento: “Peça para seu filho nomear 5 coisas que ele vê, 4 coisas que ele sente, 3 coisas que ele ouve, 2 coisas que ele cheira e 1 coisa que ele prova. Isso é especialmente divertido para fazer ao ar livre”.
Regulação com frio: “Lavar as mãos com água bem fria, espremer cubos de gelo na mão, colocar uma bolsa de gelo na lateral do pescoço por 5 minutos ou jogar água fria no rosto são maneiras rápidas de regular o corpo”.
Abraços de borboleta ou abraços de dragão: “Peça para seu filho cruzar os braços sobre o peito como se estivesse se abraçando. Enquanto ele se abraça, peça para ele alternar os toques nas mãos direita e esquerda. Enquanto faz isso, peça para ele respirar fundo
As crianças frequentemente recorrem aos pais em busca de segurança. “Não tenha medo de se sentar no chão com seu filho e participar das batidas ou dos abraços de dragão. Quanto mais seu filho vivenciar essa corregulação, mais ele começará a usar essas estratégias e se sentirá fortalecido por sua capacidade de acalmar o próprio corpo”, incentiva.
Ela lembra ainda que “criar uma criança com ansiedade pode ser uma experiência avassaladora e pode deixá-lo impotente e desanimado”. “Como pais, vocês desempenham um papel vital tanto em modelar quanto em apoiar o progresso do seu filho na aprendizagem da regulação do próprio sistema nervoso”, destaca.
Pais que agem guiados por fé e por conhecimento científico podem oferecer a seus filhos não só consolo, mas práticas tangíveis que restauram a segurança no corpo, no espírito e na mente.
Fonte Comunhão.



