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Casos de violência contra idosos aumentam no Brasil. – Foto: Reprodução IAPor Cristiano Stefenoni
O lugar que deveria representar proteção, descanso e acolhimento tem se transformado, para milhares de idosos brasileiros, em um ambiente de medo. Atrás das portas de casas aparentemente comuns, pais e mães envelhecem convivendo com humilhações, ameaças, abandono, violência física e exploração financeira praticadas justamente por aqueles que deveriam lhes oferecer cuidado: os próprios filhos.O problema cresce em silêncio. E talvez esse seja seu aspecto mais perverso. Diferentemente de outros tipos de violência, os maus-tratos contra pessoas idosas costumam permanecer escondidos durante meses ou anos. A vítima dificilmente procura ajuda. Os vizinhos raramente interferem. Os familiares evitam falar sobre o assunto. Quando finalmente uma denúncia é feita, normalmente o ciclo de violência já está consolidado.Os números ajudam a dimensionar a gravidade dessa realidade. Em 2025, o Brasil registrou 180.004 denúncias de violência contra idosos, segundo o Mapa da Violência contra a Pessoa Idosa no Brasil, coordenado pela professora Alessandra Funchal Camacho, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre os casos em que o agressor foi identificado, 55,66% eram filhos ou filhas da vítima.
As mulheres representaram 63,44% das vítimas, enquanto a faixa etária mais atingida foi a de pessoas com 80 anos ou mais, justamente aquelas que apresentam maior dependência física e emocional. A região Sudeste concentrou mais da metade das notificações registradas no país, evidenciando que o problema não está restrito a localidades isoladas nem a famílias em situação extrema de vulnerabilidade.
No Espírito Santo, o cenário segue a mesma tendência. Segundo a Delegacia Especializada de Proteção à Pessoa Idosa da Polícia Civil, a maioria absoluta das ocorrências também acontece dentro da residência da vítima. Os principais autores são filhos e cônjuges, seguidos por outros parentes próximos ou cuidadores que convivem diariamente com o idoso.idoso.
A delegada Milena Gireli afirma que, na prática, o agressor costuma ser justamente a pessoa em quem o idoso mais confia. “A imensa maioria da violência contra a pessoa idosa ocorre dentro dos lares. No âmbito capixaba, os filhos e cônjuges lideram os registros de autoria, seguidos por outros parentes de primeiro grau que residem no mesmo imóvel ou atuam como cuidadores diretos”, pontua.Aliás, é exatamente essa proximidade torna a denúncia extremamente difícil. Não se trata apenas de medo das agressões futuras. Existe um vínculo afetivo construído durante décadas. Existe culpa. Existe dependência emocional. E, muitas vezes, dependência física e financeira.
Em muitos casos, denunciar significa perder o único filho que visita a casa, ainda que seja justamente ele quem ameaça, humilha ou agride. A delegada explica que muitos casos evoluem lentamente.
“Quando falamos em violência contra a pessoa idosa pensamos sempre, primeiramente, em violência física, mas antes desta violência aconteceram outras violências como maus-tratos, negligência, abandono, ameaça e abuso financeiro. E quando a vítima diz o primeiro ‘não’ é quando costuma iniciar a violência física”, ressalta Gireli.
Essa escalada passa despercebida porque acontece dentro da rotina da família. Um filho começa administrando a aposentadoria “para ajudar”. Depois passa a controlar cartões bancários. Em seguida impede visitas de outros parentes. Decide quem pode ou não conversar com o idoso. Aos poucos surgem as ofensas, as ameaças e a intimidação.Cartões bancários desaparecem. Benefícios do INSS são movimentados sem autorização. Contas deixam de ser pagas mesmo quando existe renda suficiente. Medicamentos deixam de ser comprados. O dinheiro destinado ao sustento do idoso passa a financiar despesas do agressor.
Há uma pergunta que costuma surgir sempre que um caso de violência contra idosos ganha repercussão: por que uma mãe ou um pai continua defendendo justamente o filho que o agride? Para quem observa de fora, a resposta parece simples. Bastaria denunciar. Registrar um boletim de ocorrência. Pedir uma medida protetiva. Romper o contato.
Na vida real, porém, quase nunca é assim. A violência contra a pessoa idosa acontece em um terreno onde sentimentos como amor, culpa, dependência, vergonha e medo se misturam de maneira quase inseparável. Por isso, especialistas afirmam que compreender esse comportamento é essencial para romper o ciclo de agressões.
A delegada Gireli explica que, na maioria das ocorrências registradas, o agressor é justamente a pessoa que o idoso mais ama. “São várias as razões da dificuldade da vítima idosa denunciar, pois o seu agressor é, na maioria das ocorrências, a pessoa que ela mais ama. O amor parental e o instinto de proteção muitas vezes superam o instinto de autopreservação.”
Fonte Comunhão



