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Diálogo e reconciliação tornam o perdão um caminho para a reconstrução – Foto: Freepik
Por Patrícia Esteves
Uma ferida que persiste entre dois que se amam costuma nascer de uma ação que se repetiu ou nunca foi reconhecida. Em muitos casais que buscam aconselhamento, o problema central não é apenas o conflito, e sim a dificuldade em perdoar, seja por quem agiu, seja por quem sofreu. A partir desse reconhecimento, emergem perguntas como: o que significa perdoar? Quem ainda pode permanecer junto? E como a fé se alia à psicologia nesse processo?
No entendimento do pastor Sérgio Leoto, missionário da Servindo aos Pastores e Líderes (Sepal), que acompanhou diversas histórias de casal pelo Ministério Fortalecendo a Família, “um dos problemas mais relatados no aconselhamento de casais, é a ‘dificuldade em perdoar’”. Ele explica que existe “a pessoa que causa a decepção” e “aquele que sofre com o problema ocorrido”, e muitas vezes as percepções são bastante diferentes.No papel de quem causa, há motivos aparentemente simples, como pequenas mentiras, “dizer que foi a um lugar, que não foi”, ou uma responsabilidade encoberta, como “esquecer de pagar uma conta”. O pastor destaca ainda que existem também temas graves na discussão conjugal, como infidelidades, violência doméstica, finanças mal administradas, falsidades etc.
Segundo ele, um dos erros mais comuns é tentar relativizar a falha. “Alguns tentam ‘minimizar’ o problema, dizendo que ‘todo ser humano erra’, o que é verdade, mas irrita quem foi prejudicado, por ‘tirar o corpo fora’ sem admitir sua culpa”, explica. Para o pastor, o princípio bíblico é: “Quem esconde seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia” (Provérbios 28:13).

Já no lugar de quem sofre a decepção as emoções são intensas. “Esta pessoa se sente desapontada, iludida, frustrada e enganada… É compreensível o fato de afirmar que ‘não consegue perdoar’ quem a feriu”, afirma Sérgio Leoto.
Ele reconhece que o processo é difícil, mas lembra que, para quem vive uma relação de fé, há um recurso sobrenatural. “Naqueles momentos, aqueles que têm uma experiência de amizade com Jesus (…) terão uma ajuda ‘sobrenatural’, na atitude de perdoar. O Espírito Santo, que habita neles, os ajuda a assimilarem o golpe, perdoando como Cristo nos perdoou (Cl 3:13: ‘…perdoem como o Senhor lhes perdoou’)”, detalha.
A Bíblia apresenta o perdão como um mandamento espiritual. “Independentemente do que nos fizeram, a Bíblia nos manda perdoar! O grande exemplo foi Jesus, tínhamos uma dívida diante de Deus; Cristo se ofereceu para receber o castigo, morrendo na cruz, em nosso lugar”, diz o pastor, citando Romanos 5:8: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores”. Mesmo assim, se o perdão é uma exigência da fé, ele também é um desafio humano.
Para a psicóloga Magali Leoto, esposa de Sérgio e missionária, o perdão é mais viável quando há arrependimento verdadeiro. “É sempre mais fácil perdoar, quando vemos uma atitude real de arrependimento, vinda de quem nos decepcionou”, explica. “Claro que esta pessoa levará um tempo, para confirmar que ‘mudou mesmo de vida’. Mas, esta é uma consequência para quem errou. Está perdoada, mas deverá provar com atitudes, que é novamente confiável, como antes de haver o problema”, acrescenta.Há situações, porém, em que o arrependimento não acontece e o comportamento nocivo se repete. Nesses casos, surge a dúvida inevitável de como agir diante de quem não foi sincero. “E se a pessoa continua a nos trair, enganar e agredir, repetidas vezes? Também devemos perdoar? Sim. Mas quanto a ‘continuar juntos’, o casal precisa buscar ajuda profissional, para tomar uma decisão final (pastor, psicólogo, psiquiatra e, em alguns casos, advogados)”. “Busquem ajuda! O quanto antes!”, orienta Magali.
O alerta da psicóloga é fundamental, pois o perdão não deve ser confundido com a obrigação de permanecer em uma relação abusiva. A reconciliação requer mais do que palavras, ela demanda segurança, arrependimento genuíno e mudança de comportamento.
Para casais que desejam reconstruir o vínculo, Magali e Sérgio apontam alguns caminhos práticos:
“Quem esconde seus pecados, não prospera, mas quem os confessa e os abandona, encontra misericórdia”, reforça o pastor, citando novamente Provérbios 28:13.
O perdão que transforma relacionamentos não é apenas um ato isolado, mas uma jornada. Ele exige reconhecimento, mudança, vulnerabilidade e, acima de tudo, persistência. Para quem causou a dor, é o início de um processo de responsabilidade e reparação. Para quem foi ferido, é a libertação da amargura e a chance de recomeçar, conforme explica o casal Leoto.
No fim das contas, perdoar é um exercício diário de humanidade e fé. É reconhecer a própria limitação, abrir espaço para o outro e, ao mesmo tempo, aprender a cuidar de si. Um processo que, embora nem sempre garanta o “felizes para sempre”, conduz à paz de quem escolheu não carregar o peso do que passou.
Fonte Comunhão



