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Elas são maioria nas igrejas, mas poucas podem ser pastoras. Por que?

SBC reabre discussão sobre ordenação de pastoras em 2024. – Foto: Reprodução IAPor Cristiano Stefenoni

A possibilidade de mulheres exercerem o pastorado voltou ao centro das discussões evangélicas após um grupo de líderes da Convenção Batista do Sul (SBC), maior denominação protestante dos Estados Unidos, pedir que a entidade retome a análise de uma proposta que proíbe definitivamente a ordenação de pastoras em suas igrejas-membro. A chamada “Emenda à Lei” foi rejeitada em 2024 por não alcançar os dois terços dos votos necessários para aprovação, mas voltou à pauta por meio de uma carta aberta assinada por pastores e líderes que defendem uma posição mais restritiva sobre o tema.

O documento foi divulgado após uma decisão do Comitê de Credenciais da convenção permitir que uma igreja da Carolina do Sul permanecesse em cooperação com a denominação mesmo tendo uma mulher atuando como pastora-professora. O episódio reacendeu um debate que atravessa séculos do cristianismo: afinal, a mulher pode ser ordenada pastora?A discussão ganha contornos ainda mais relevantes no Brasil. Segundo dados do Censo Demográfico do IBGE, os evangélicos somam cerca de 47,4 milhões de pessoas no país, sendo aproximadamente 26,2 milhões de mulheres, o equivalente a 55,4% desse universo. Apesar disso, muitas das maiores denominações evangélicas brasileiras continuam sem ordenar mulheres ao pastorado.

Entre elas estão a Igreja Adventista do Sétimo Dia, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), a Igreja Presbiteriana do Brasil e diversos segmentos batistas conservadores. Em contrapartida, igrejas como a Quadrangular, metodistas, anglicanas e diversas comunidades evangélicas independentes reconhecem oficialmente mulheres como pastoras.

Para o presidente da Convenção Evangélica dos Ministros das Assembleias de Deus no Estado do Espírito Santo (Cemades), pastor Álvaro Oliveira Lima, a questão está relacionada à interpretação dos textos bíblicos e não a uma avaliação da capacidade feminina.

“A Bíblia Sagrada reconhece amplamente o trabalho feminino na obra do Senhor, não obstante não dá respaldo para ordenação de pastora. Nós entendemos que a mulher não deve ser ordenada pastora com base nos textos de 1 Timóteo 2:12, onde Paulo afirma: ‘Não permito, porém, que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre o homem’, além de 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9, que apresentam os requisitos para bispos e presbíteros no masculino”, afirma.Segundo ele, a posição histórica das Assembleias de Deus não impede a atuação feminina em diversas áreas da igreja. “A mulher pode evangelizar, pode ensinar outras mulheres, crianças, ser missionária, ser dirigente de departamentos”, explica. Na visão do pastor, atividades como ministrar a ceia, realizar batismos e celebrar casamentos pertencem ao exercício pastoral e fazem parte de princípios que a igreja entende como imutáveis.

A crítica mais comum à restrição do pastorado feminino é a de que ela representaria uma forma de discriminação em pleno século XXI. No entanto, Álvaro Oliveira Lima rejeita essa interpretação.

“A não ordenação de mulheres ao pastorado, na visão bíblica, não se baseia em inferioridade ou incapacidade da mulher, mas em uma interpretação dos papéis ministeriais estabelecidos nas Escrituras como princípio. Isso não é machismo. A igreja entende que homens e mulheres possuem igual valor diante de Deus, porém exercem funções diferentes na administração da igreja. Portanto, para quem sustenta essa posição por convicção bíblica, trata-se de uma questão doutrinária, e não de machismo”, argumenta.

A questão sob outro ponto de vista

Já o pastor Marciley Neves, CEO do Touch Peace, apresenta uma compreensão diferente da questão. Para ele, a discussão deve começar pelo entendimento de que os dons ministeriais são distribuídos pelo próprio Espírito Santo.A Bíblia ensina que quem distribui os dons para o serviço cristão é o Espírito Santo, conforme Sua vontade. Portanto, a capacitação para servir a Deus como pastora não deveria, a meu ver, ser determinada por uma igreja, convenção ou instituição humana, mas pelo próprio Senhor”, afirma.

Marciley lembra que as Escrituras registram diversas mulheres exercendo funções relevantes na história do povo de Deus. “Na Bíblia, encontramos mulheres que exerceram papéis relevantes na obra de Deus, ensinando, liderando, profetizando, discipulando e influenciando gerações. Isso demonstra que Deus usa homens e mulheres para cumprir Seus propósitos”, destaca.

Para ele, o centro do debate não está na capacidade espiritual feminina. “A discussão não deveria se concentrar na capacidade espiritual das mulheres, pois essa é concedida pelo Espírito Santo. A questão está na interpretação e aplicação dos textos bíblicos referentes à estrutura de liderança da igreja”, afirma. O pastor também observa que a autorização para realizar cerimônias como casamento, batismo e ceia costuma variar de acordo com as regras de cada denominação.

Enquanto o debate teológico permanece aberto, a realidade mostra que milhares de mulheres exercem funções de liderança em igrejas brasileiras, seja como missionárias, professoras, evangelistas, dirigentes de ministérios ou pastoras reconhecidas por determinadas denominações.Em termos financeiros, a remuneração de uma pastora costuma seguir os mesmos critérios aplicados aos pastores homens, variando conforme o tamanho da igreja e a região do país. Em média, a renda mensal gira entre R$ 3 mil e R$ 6 mil em igrejas de porte médio, podendo ser inferior em congregações pequenas e superior em grandes igrejas.

Independentemente da posição adotada, os dois líderes concordam em um ponto: a participação feminina é fundamental para a expansão da fé cristã. A divergência está em definir se essa atuação inclui ou não a ordenação ao pastorado. E, ao que tudo indica, essa continuará sendo uma das discussões mais sensíveis e relevantes dentro do evangelicalismo contemporâneo.

Fonte Comunhão





19/06/2026 – Net 3 Gospel

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