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Política intensifica ofensiva por voto evangélico

Por Cristiano Stefenoni

Por trás dos púlpitos, nas agendas discretas de gabinetes e nos corredores do Congresso, uma engrenagem política gira com precisão cirúrgica. O alvo é claro: o eleitorado evangélico, hoje um dos mais organizados e influentes do país. À medida que o calendário eleitoral avança, pré-candidatos de diferentes espectros ideológicos intensificam movimentos para se aproximar de lideranças religiosas, construir alianças e, sobretudo, garantir acesso a um contingente de votos capaz de definir eleições majoritárias e proporcionais.

Os números ajudam a explicar a corrida. Dados do último Censo indicam que os evangélicos representam 26,9% da população brasileira, o maior patamar já registrado. Em pouco mais de uma década, o crescimento foi de cinco pontos percentuais, enquanto o catolicismo seguiu trajetória inversa. Trata-se de um eleitorado em expansão, com forte presença nas periferias urbanas e crescente capilaridade política. Em disputas acirradas, como as presidenciais e para o Senado, esse grupo pode funcionar como fiel da balança, especialmente em cenários de fragmentação.Não por acaso, a movimentação dos políticos ocorre em múltiplas frentes. Há desde a presença em cultos e congressos religiosos até articulações mais sofisticadas, como a filiação de lideranças evangélicas ou seus familiares a partidos estratégicos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem ampliado sua agenda em igrejas e encontros com pastores, consolidando sua identidade religiosa como ativo eleitoral.

No final de fevereiro, por exemplo, ele se encontrou com os líderes da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), pastores José Wellington Bezerra da Costa e José Wellington Bezerra da Costa Júnior.

Contudo, apesar de ser o indicado direto da disputa presidencial feita pelo seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio ainda enfrenta a resistência de algumas lideranças religiosas que prefeririam ter o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em seu lugar no pleito de 2026.

Já o governador Ronaldo Caiado (PSD), ao se lançar como alternativa à polarização, também busca interlocução com lideranças evangélicas, tentando ocupar um espaço de centro-direita com discurso menos ideológico e mais pragmático.Ao mesmo tempo, o fenômeno não se restringe à direita. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, historicamente distante desse segmento, tem feito gestos de aproximação. Mas a participação dele este ano no desfile das escolas de samba do Rio que o homenageou e expôs uma ala com o tema “família em conserva”, ampliou ainda mais essa distância.

Senado e Congresso também geram disputa

O deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), pré-candidato ao Senado, participou de culto em São Paulo no qual recebeu apoio explícito de lideranças religiosas. Enquanto isso, o deputado Marco Feliciano (PL-SP) foi impulsionado por vídeos gravados por pastores influentes, que o apresentam como opção para representar os interesses da igreja no Congresso.Nos bastidores, alianças são costuradas com foco em estrutura e capilaridade. O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que tenta retornar à vida parlamentar, investe na comunicação direta com o público evangélico por meio de rádios e eventos.

Em Minas Gerais, o ex-secretário Marcelo Aro se aproxima da Igreja Universal, ampliando sua visibilidade em programas de televisão ligados ao grupo. Já Arthur Lira (PP-AL), também de olho no Senado, articulou a filiação de Gunnar Nicácio, filho de um influente líder da Assembleia de Deus em Alagoas, numa tentativa de consolidar palanque regional.

Esse modelo de atuação revela um padrão: políticos buscam não apenas o voto individual do fiel, mas o apoio institucional das igrejas, que funcionam como redes de mobilização altamente eficientes. Em muitos casos, a indicação de um candidato por um líder religioso pode significar acesso direto a milhares de eleitores, com potencial de replicação em escala nacional. É uma lógica que transforma capital religioso em ativo político.

Busca de apoio em todos os lados

Paralelamente, lideranças religiosas ampliam sua atuação para além das eleições. O apoio do bispo Samuel Ferreira à indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal ilustra como a influência evangélica transborda para outras esferas de poder. Nesse caso, o objetivo não é apenas eleitoral, mas institucional: garantir presença ou alinhamento em espaços estratégicos, como o Judiciário, onde decisões sobre temas morais e sociais têm impacto direto sobre a base religiosa.

Esse avanço, no entanto, levanta questionamentos jurídicos e éticos. A legislação eleitoral brasileira proíbe propaganda dentro de templos religiosos, mas especialistas divergem sobre os limites entre manifestação de fé e campanha antecipada. Para alguns, é necessário comprovar pedido explícito de voto e uso da estrutura religiosa para caracterizar irregularidade. Para outros, há uma “zona cinzenta” que permite práticas difíceis de enquadrar, ainda que politicamente controversas.

Do ponto de vista eleitoral, os ganhos são evidentes para candidatos que conseguem estabelecer pontes sólidas com o segmento. O apoio de lideranças pode garantir visibilidade, credibilidade e mobilização. Por outro lado, há riscos. A associação excessiva a pautas religiosas pode afastar eleitores de perfil mais secular ou reforçar a polarização, especialmente em temas sensíveis como direitos reprodutivos e questões de gênero.Para as igrejas, o envolvimento político também traz dilemas. Se, por um lado, amplia sua influência e capacidade de defesa de valores, por outro, pode expor a instituição a desgastes e divisões internas. A politização do púlpito tende a transformar espaços de culto em arenas de disputa, com potencial de fragmentar comunidades.

Fonte comunhão.




06/04/2026 – Net 3 Gospel

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