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Por Cristiano Stefenoni
A música Auê (A Fé Ganhou), lançada pelo Coletivo Candiero, se tornou alvo de forte debate no meio evangélico ao romper com os padrões tradicionais da música gospel. A polêmica ganhou força nas redes sociais, em vídeos e publicações que questionam tanto a linguagem como o ritmo da canção, acusada por críticos de misturar referências culturais populares e de religiões de matriz africana com o ambiente de adoração cristã.
Um dos principais pontos de contestação é o próprio título da música. A palavra “auê”, de uso coloquial no português brasileiro, significa barulho, agitação ou confusão. Para parte do público gospel, o termo estaria associado à desordem, o que contrasta com a ideia de reverência esperada em um louvor. Críticos afirmam que a repetição da palavra no refrão reforçaria um clima festivo considerado inadequado ao culto.Outro elemento que gerou reações negativas foi o uso de nomes comuns na letra, como “Maria” e “Zé”. O trecho que menciona “a Maria sambou, sua saia balançou” foi interpretado por alguns como uma associação indevida a uma dança dedicada a Maria Padilha, divindade das religiões de matriz africana.
Já a referência ao “Zé” foi alvo de críticas por supostamente remeter, ainda que indiretamente, a figuras do imaginário religioso popular brasileiro, como Zé Pelintra, entidade também presente em religiões de matriz afro-brasileira.
O ritmo também está no centro da controvérsia. A canção incorpora elementos de ciranda, samba e música popular brasileira, fugindo do padrão mais comum do louvor congregacional. Para críticos, essa escolha estética reforça a sensação de “mistura” entre sagrado e profano. Já apoiadores defendem que a proposta celebra a fé a partir da cultura brasileira, destacando alegria, inclusão e diversidade de expressões.
Análises mais amplas apontam que a controvérsia não se sustenta em acusações teológicas objetivas, mas em um choque cultural dentro do próprio cristianismo. A discussão expõe tensões antigas entre tradição e inovação, revelando como linguagem popular, ritmo e símbolos culturais ainda provocam resistência quando ocupam o espaço da música de fé.
O cantor, compositor, produtor musical, multi-instrumentista, arranjador e escritor brasileiro, Jorge Camargo, deu o seu apoio ao grupo Candiero. “É a velha história: vinho novo em odres velhos rompe os odres! Viva o Candiero, viva a música e a cultura brasileiras, viva a nossa ancestralidade”, postou o artista em suas redes sociais.
O líder da Igreja Batista de Água Branca, pastor Kenner Terra, defendeu o estilo musical envolvido na polêmica. “Há muito tenho dito que o Coletivo Candiero está entre os movimentos artísticos tecidos na esperança, mais interessantes e potentes da nossa linguagem evangélica. E tudo o que é profético incomoda; e quando o faz com sotaque brasileiro, é sempre um “auê”: festa para os que têm sensibilidade/brasilidade espiritual, e “barafunda” para os que só cantarolam Deus em língua USA”, escreveu Terra, que emendou:
“Auê é festa; Zé e Maria, gente simples, povo do Evangelho, entraram nesse samba alegre da fé e, mesmo que ninguém esteja acostumado, a saia balançou. Por quê? Simples: Jesus os convidou. Os Candieros apenas obedeceram à voz do Mestre e anunciaram. Uai, quem se incomodou talvez não goste muito dessa bagunça santa do Nazareno, do mistério da graça de Deus cantado em brasilês”, disse.
O pastor em Novo Hamburgo, Lucas Graffunder, disse que o problema maior não é com a letra da música, mas com a dificuldade do brasileiro em lidar com a sua própria cultura. “Basta um ritmo nordestino soar diferente e logo aparece o rótulo apressado: ‘isso lembra macumba’. Só que isso costuma ser medo vestido de zelo. E a pergunta vira outra: nós conseguimos reconhecer que Deus fala com povos reais, em linguagens reais, sem transformar o que é ‘fora do meu costume’ em suspeita automática?”, postou em suas redes.Na sua opinião, o caminho não é demonizar o regional nem canonizar um padrão “de igreja” como se ele fosse o único possível. “O caminho é discernir com seriedade o que está sendo confessado e para onde aquilo conduz a congregação. O canto da igreja não é enfeite do culto. É a fé na boca do povo. E a igreja sempre cantou na língua do povo. Quando ela faz isso, não está cedendo à cultura, está usando a cultura como instrumento para anunciar Cristo ao próprio povo, no seu chão, no seu jeito de falar e viver”, ressaltou.
Para um dos nomes mais tradicionais da música cristã brasileira, o pastor, cantor e compositor Paulo Cesar, do Grupo Logos, a música evangélica precisa ser a mais simples e pura possível, sem enfeites ou rodeios.
“Tenho uma premissa: tudo que é puramente evangélico e trata do Evangelho, não tem máscara, não tem disfarce. Ela é claramente observada como alguma coisa do Senhor. Minha música não é gospel, é cristã evangélica, não há disfarces. Na minha música eu coloco a Bíblia, falo dela, não tenho outros elementos”, pontua.
A vocalista do grupo, Ana Heloysa, postou um vídeo fazendo observações sobre toda essa polêmica. Ela criticou as duras críticas que o grupo recebeu e julgou como “maldosa”, “presunçosa” e preconceituosa”. A cantora comparou a reação do público com quem passa a tomar café sem açúcar, ou seja, há uma mudança de adaptação no paladar, até que a pessoa se acostume com o novo sabor.
“Entendo que colocar novos sabores e cores na música cristã no Brasil causa esse incômodo porque nós estamos acostumados com um tipo de música das nossas igrejas que é muito diferente disso”, afirma. Heloysa lembrou que isso tudo faz parte de uma herança cultural trazida pelos missionários europeus e que ditam, até hoje, o estilo de culto e a doxologia nas igrejas.
“Isso fez com que o cristão brasileiro desprezasse a própria cultura de seu país. Sobre a música em específico, quando citamos o Zé e a Maria, o objetivo era citar pessoas comuns de nosso país. Muita gente vai ter esse estranhamento porque falta leitura, bagagem. Por que a gente sacraliza um piano que foi tocado por um músico genial, mas que tinha uma vida nada pura e demoniza instrumentos tocados por pessoas que tem suas crenças diferentes, mas que tem uma cor de pele específica? Essa música toca na ferida do racismo. Se alguma pessoa que tem essa crença chegar na sua igreja, como ela vai ser recebida?”, observa.
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Auê (A Fé Ganhou)
(Ana Heloysa, part. Marco Telles, Filipe da Guia e Coletivo Candiero)
Pode entrar, eu ouvi, alagou o olhar
Quando o lustre tá no chão, onde os meus estão?
Com a folha, eu aprendi como se deve cair
E agora, com as mãos estendidas
Você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar
Com minhas roupas, minhas falhas, minhas brigas
Com a folha, eu aprendi como se deve cair
E agora, com as mãos estendidas
Você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar
Com minhas roupas, minhas falhas, minhas birras
Auê (auê, auê, auê, auê, auê, auê)
(Auê, auê, auê, auê, auê, auê)
Com a folha, eu aprendi como se deve cair
E agora, com as mãos estendidas
Você quer me levantar, diz que aqui é meu lugar
Com minhas roupas, minhas falhas, minhas birras
Agora que o Zé entrou, e todo mundo viu
E todo mundo olhou, e todo mundo riu
Ninguém se acostumou, mas o Céu se abriu
Agora que a fé ganhou, e a Maria sambou
Sua saia balançou, alguém se incomodou
Com a cor que ela mostrou, mas o Céu coloriu
Agora que o Zé entrou, e todo mundo viu
E todo mundo olhou, e todo mundo riu
Ninguém se acostumou, mas o Céu se abriu
Agora que a fé ganhou, e a Maria sambou
Sua saia balançou, alguém se incomodou
Com a cor que ela mostrou, mas o Céu coloriu (mas o Céu coloriu)
Auê, dança na ciranda da fé
Que te abriu as portas (que te abriu)
Auê, solta tua criança até
Explodir em glória
Auê, dança na ciranda da fé
Que te abriu as portas
Auê, solta tua criança até
Explodir em glória
Com a folha, eu aprendi como se deve cair
E agora (e agora), e agora (e agora)
Auê, dança na ciranda da fé (a fé)
Que te abriu as portas
Auê, solta tua criança até
Explodir em glória
Auê, dança na ciranda da fé
Que te abriu, abriu as portas (abriu as portas)
Auê, solta tua criança até
Explodir em glória (explodir)



