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Por Patrícia Esteves
A espiritualidade cristã não se constrói pela negação da dor, mas pela capacidade de atravessá-la com lucidez, fé e responsabilidade. Quando o sofrimento emocional é espiritualizado de forma excessiva, cria-se a expectativa de que oração, leitura bíblica e comunhão sejam suficientes para resolver qualquer tipo de angústia.
A experiência pastoral de Reginaldo Santos, pastor da Igreja Assembleia de Deus no Amazonas, aponta outra direção mostrando que fé e saúde mental não competem entre si, se complementam.A ansiedade, segundo ele, é uma realidade humana que atinge inclusive pessoas de fé profunda. Ele lembra que Elias, Davi e o apóstolo Paulo enfrentaram crises emocionais registradas nas Escrituras, o que revela que sofrimento psíquico não é sinal de imaturidade espiritual, mas parte da condição humana. A diferença está na forma como se responde a esse sofrimento se com negação ou com consciência.
Espiritualidade madura reconhece que existem limites. Quando a ansiedade se torna crônica, interfere na vida cotidiana, gera pensamentos intrusivos, isolamento social e perda de sentido espiritual, apenas o suporte religioso pode não ser suficiente. Nesses casos, buscar ajuda profissional não representa fracasso espiritual, mas responsabilidade consigo mesmo.
A própria compreensão bíblica apresentada por Reginaldo sustenta essa integração. A fé oferece sentido, esperança e confiança em Deus. A terapia oferece ferramentas práticas, estratégias emocionais e espaço seguro para elaboração da dor. Uma não substitui a outra, ambas se fortalecem mutuamente.
Ignorar a dimensão psicológica do sofrimento pode gerar culpa excessiva, sensação de abandono divino e uma espiritualidade marcada mais pelo medo do que pela confiança. Quando a fé é vivida de forma saudável, ela não sufoca a realidade emocional, ela ilumina essa realidade, segundo o pastor.Espiritualidade madura, portanto, não é a que promete imunidade ao sofrimento, mas a que permite enfrentar a própria fragilidade com honestidade. Orar, ler a Bíblia, participar da comunidade e, ao mesmo tempo, sentar-se em uma sala de terapia não é contradição, é coerência. Reconhecer a necessidade de ajuda é, em si, um gesto espiritual.
Fonte comunhão.



