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Nem picanha, nem fuzil: por que Cury cresce entre evangélicos?

A identificação com Cury tem mais a ver com seu discurso e sua representatividade”, afirma Terra. Na avaliação dele, o candidato ocupa atualmente um lugar de moderação que pode despertar interesse em determinados segmentos. Entretanto, a ideia de que os evangélicos estariam descobrindo uma nova alternativa eleitoral ainda precisa passar pelo teste das urnas.

 

Essa cautela é especialmente relevante porque há uma interpretação recorrente sobre o comportamento eleitoral evangélico que Terra considera equivocada: a ideia de que pastores determinam automaticamente em quem seus fiéis votarão.

 

Segundo ele, alguns analistas tratam os evangélicos como uma espécie de “massa idiotizada e facilmente manipulável”, comparável a um curral eleitoral. Essa leitura, afirma, não encontra respaldo no que mostram as pesquisas.

 

A influência pastoral existe, mas não funciona de maneira automática. O fiel não necessariamente transforma a recomendação do líder religioso em voto. Para Terra, imaginar o contrário também revela uma forma de preconceito ou de falta de compreensão crítica sobre a diversidade existente dentro do universo evangélico.

 

Isso, entretanto, não significa que o eleitor evangélico seja necessariamente mais crítico ou mais racional do que os demais. Terra lembra que os evangélicos, assim como a maioria dos brasileiros, tomam decisões eleitorais influenciados por questões imediatas, experiências pessoais e crenças individuais. É justamente essa diversidade que torna difícil falar em “voto evangélico” como se fosse uma úniUm eleitorado sem dono

A advertência de Kenner Terra também lança luz sobre a disputa que começa a se desenhar em torno de Cury. Se parte das lideranças religiosas enxergar no candidato uma alternativa à polarização, isso não significa que milhões de fiéis seguirão o mesmo caminho. Da mesma maneira, uma eventual resistência de líderes ligados ao bolsonarismo não garante que seus seguidores necessariamente abandonarão Cury.

 

O eleitorado evangélico não funciona como um bloco eleitoral comandado por uma única liderança. Para Terra, partidos e candidatos deveriam abandonar justamente essa lógica de conquista de um suposto “capital político evangélico”.

 

“Como ministro do evangelho, gostaria, com toda sinceridade, que os partidos e candidatos não tratassem os eleitores evangélicos e as igrejas como capital político a ser conquistado”, afirma.

 

A recomendação dele é que candidatos dialoguem com líderes religiosos e com os evangélicos de maneira ampla, reconhecendo a pluralidade existente dentro do movimento. Não haveria, portanto, um nome capaz de falar em nome de todos os evangélicos ou uma liderança que possa ser considerada proprietária de seusA observação pode ser particularmente importante para compreender o fenômeno Cury. O que está em jogo talvez não seja uma eventual “conversão” dos evangélicos a uma nova candidatura, mas a existência de segmentos desse eleitorado que podem estar procurando uma alternativa capaz de preservar determinadas convicções, principalmente relacionadas à família e aos valores, sem necessariamente reproduzir a lógica de confronto político dos últimos anos.

 

É uma diferença sutil, mas eleitoralmente enorme. Cury não precisaria convencer todos os evangélicos. Talvez bastasse convencer uma parcela deles. E, em uma eleição na qual Lula e Flávio aparecem separados por poucos pontos, essa parcela poderia ser suficiente para alterar o desenho da disputa.

 

Movimento já começa a provocar reações

O pastor Samuel Nova, da Believe Church, em Maceió, declarou publicamente apoio a Augusto Cury e afirmou que não pretende votar nem no PT nem em Flávio Bolsonaro. Ao defender uma alternativa à polarização, disse que começou a prestar atenção no movimento em torno do nome de Cury e questionou se seria possível “se empolgar” com a candidatura.

 

A manifestação recebeu apoio de outros nomes do meio evangélico. A cantora Angelica Moreira escreveu que também estava esperançosa após conversar com o marido. Dênio Lara Jr., da Igreja Dinamus, comentou “Tô contigo”. O pastor William Hudson, da Bem-Vindo Igreja, também manifestou entusiasmo com a possibilidade de Cury avançar.

 

Essas manifestações não representam, evidentemente, uma posição coletiva dos evangélicos brasileiros. São declarações individuais e devem ser tratadas como tal. Mas são sinais de que a candidatura começou a ser discutida dentro de ambientes religiosos que tradicionalmente desempenham papel relevante na mobilização eE houve reação imediata. A declaração de Samuel Nova também provocou uma resposta do pastor Josué Valandro Jr., da Igreja Batista Atitude, líder religioso próximo à família Bolsonaro. Valandro criticou a opção por Cury e escreveu, em resposta à manifestação de Nova: “Não vota no Flávio? Vai entregar na mão do Lula. Sua fala vai gerar voto nulo no segundo turno”.

 

O episódio é revelador porque coloca em lados diferentes duas leituras sobre o chamado voto útil. De um lado, a ideia de que um eleitor pode votar em Cury já no primeiro turno para romper a polarização. De outro, o argumento de que uma candidatura alternativa pode retirar votos de Flávio Bolsonaro e, no segundo turno, favorecer Lula.

 

É uma discussão que provavelmente crescerá conforme a eleição se aproximar. Porque existe uma diferença fundamental entre voto de identidade e voto estratégico. O primeiro pergunta: “Em quem eu acredito?” O segundo pergunta: “Quem pode vencer?”

 

Cury pode crescer justamente entre eleitores que, neste momento, estão cansados de responder apenas à segunda pergunta. O próprio Cury aposta na ruptura da polarização. Nas redes sociais, o candidato tem reforçado essa identidade.leitoral.

Fonte Comunhão.




28/08/2026 – Net 3 Gospel

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