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A importância da prevenção
A prevenção não depende de vigiar crianças a cada segundo nem de transformar o mundo em um lugar de medo. Ela passa por algo mais concreto: conhecer quem convive com os filhos, estabelecer limites, conversar sobre o corpo, observar mudanças de comportamento, criar adultos de referência e agir diante de suspeitas.
Mauricio Cunha resume essa responsabilidade de forma direta: “A proteção começa com o empoderamento da própria criança, mas só se concretiza quando toda a sociedade assume sua responsabilidade coletiva. A violência contra crianças não é um problema privado. Trata-se de uma violação de direitos humanos que exige resposta pública, ética e urgente.”
É justamente aí que a prevenção deixa de ser apenas uma palavra e se transforma em atitude. Crianças não precisam apenas de adultos que as amem. Precisam de adultos atentos, preparados para ouvi-las e dispostos a agir quando algo não estiver cIsso significa estabelecer regras claras sobre acesso às crianças, evitar situações de isolamento, definir procedimentos para receber denúncias e capacitar adultos para agir diante de suspeitas. Proteção infantil não combina com improviso.
O silêncio protege o agressor
Um dos grandes obstáculos no combate à violência infantil é o silêncio. Ele pode surgir por medo, vergonha, dependência financeira, ameaça, manipulação emocional ou simplesmente porque a criança não compreende que aquilo que sofreu é uma violência.
Em alguns casos, a própria família pode desacreditar do relato por confiar no possível agressor. Por isso, informação é uma ferramenta de proteção. Quanto mais adultos souberem identificar sinais e conhecerem os caminhos para denunciar, menores são as chances de uma situação permanecer invisível durante anos.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reforça que mudanças de comportamento, isolamento e medo excessivo podem estar entre os sinais de violência e orienta a sociedade a denunciar suspeitas.
A denúncia, portanto, não exige que o cidadão tenha certeza absoluta de que um crime aconteceu. Diante de uma suspeita fundamentada ou de uma situação de risco, a orientação é procurar a rede de proteção e deixar a investigação para os órgãos resp
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Violência infantil: como identificar sinais, agir e prevenir
12 de agosto de 2026
Duas meninas são encontradas mortas em carro na zona Sul de São Paulo.
Pai confessa ter matado duas filhas em São Paulo. – Foto: Reprodução redes sociais
Tragédia que manchou de sangue o Dia dos Pais revela a necessidade urgente de redes de proteção à infância diante de violência familiar, com a união de todos
Por Cristiano Stefenoni
O Dia dos Pais de 2026 terminou marcado por uma tragédia que ultrapassou os limites de uma família e voltou a lançar luz sobre uma questão que exige atenção permanente da sociedade: a violência contra crianças. Na madrugada de domingo (9), as irmãs Ísis Helena e Laís Heloísa Alves de Souza, de 3 e 5 anos, foram encontradas mortas dentro de um carro na zona Sul de São Paulo. O pai, Breno de Souza Castro, de 24 anos, procurou uma delegacia depois do crime e confessou ter matado as duas meninas. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva pela Justiça durante audiência de custódia realizada na segunda-feira (10).
O episódio reacendeu o debate sobre a chamada violência vicária, situação em que filhos ou outros familiares podem ser utilizados pelo agressor como instrumento para provocar sofrimento à mulher. Mais do que um caso isolado, a história chama atenção para uma pergunta que precisa ser feita dentro das famílias, escolas, igrejas e demais espaços frequentados por crianças: como identificar uma situação de violência e o que fazer diante de uma suspeita?
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A ideia de que o perigo para uma criança vem principalmente de desconhecidos é uma das principais armadilhas na prevenção do abuso. De acordo com a delegada Sheila Aparecida de Mello Oliveira, criadora do projeto “Sem Medo de Viver”, muitos abusadores chegam às vítimas justamente porque conquistam primeiro a confiança dos adultos.
“Infelizmente, a maioria dos abusadores não se aproxima da criança pela força. Eles primeiro conquistam a confiança dos adultos. Parecem prestativos, educados, atenciosos e procuram fazer parte da rotina da família. É o que chamamos de grooming, um processo de manipulação em que o agressor cria um vínculo para ter acesso à vítima”, explica.
O chamado grooming descreve justamente esse processo de aproximação, confiança e manipulação. O problema é que, quando o adulto parece confiável, a família pode reduzir a vigilância. O agressor passa a ter acesso frequente à criança e, em alguns casos, permanece durante meses ou anos no círculo de convivência antes que qualquer suspeita apareça.
“Por isso, é um erro imaginar que o perigo está apenas em um estranho na rua. Muitas vezes, ele está em alguém conhecido, que conquistou a confiança da família”, afirma Sheila.
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Os dados recentes reforçam a necessidade de abandonar a ideia de que a violência contra crianças ocorre apenas longe de casa. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 com dados de 2025, mostra que 59,2% dos agressores de vítimas de estupro e estupro de vulnerável entre 0 e 13 anos eram familiares. Outros 36,9% eram pessoas conhecidas.
Ou seja: em aproximadamente 96% dos casos analisados envolvendo vítimas de até 13 anos, o agressor era alguém pertencente ao círculo familiar ou conhecido da vítima. O número ajuda a explicar por que campanhas de prevenção baseadas apenas no alerta contra “estranhos” são insuficientes.
A violência dentro de casa
O retrato mais recente da segurança pública brasileira traz outro alerta. Enquanto o país registrou queda de 8,2% nas mortes violentas intencionais em 2025, chegando à menor taxa da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diversos indicadores relacionados à violência doméstica cresceram.
Entre crianças e adolescentes, foram registrados 38.986 casos de maus-tratos em 2025, alta de 14,6% em relação a 2024. Na comparação com 2021, o crescimento chega a 106,1%. Crianças de 0 a 9 anos representaram 59,1% das vítimas.
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Também foram contabilizados 21.811 registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra crianças, aumento de 5,5% em relação ao ano anterior. O abandono de incapaz chegou a 14.815 registros, alta de 18,5%, enquanto a subtração de crianças e adolescentes alcançou 1.866 ocorrências, crescimento de 33,7%.
Os números não significam que todos esses casos tenham a mesma natureza ou gravidade. Eles, porém, revelam uma tendência preocupante: o ambiente doméstico, que deveria representar segurança, também pode ser cenário de agressões, negligência e outras violações.
A violência também assume novas formas no ambiente digital. Pela primeira vez, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresentou um levantamento específico sobre produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil. Em 2025, foram identificadas 4.063 vítimas, crescimento de 25,3% em relação ao ano anterior. Entre os autores identificados, 34,2% eram adolescentes.
Prevenção começa antes da suspeita
Para a delegada Sheila, a proteção não começa quando aparece uma denúncia. Ela precisa fazer parte da rotina familiar. “O primeiro cuidado é ter muito critério sobre quem convive com a criança. Nem todo relacionamento adulto precisa significar acesso aos filhos”, orienta.
A delegada defende também que crianças sejam ensinadas, desde cedo e de maneira adequada à idade, sobre limites corporais e sobre a possibilidade de procurar ajuda. “É fundamental conversar com a criança sobre proteção do próprio corpo, ensinar que existem toques que não são aceitáveis e criar um ambiente em que ela saiba que pode contar qualquer situação sem medo de ser julgada.”
Essa conversa não precisa assumir um tom assustador. A criança pode aprender, por exemplo, que determinadas partes do corpo são privadas, que ninguém deve pedir segredo sobre toques inadequados e que ela nunca será culpada por contar algo que aconteceu.
O cuidado também precisa acompanhar a idade. Uma criança pequena pode não compreender conceitos abstratos de abuso, mas consegue aprender regras simples de proteção, reconhecer desconfortos e identificar adultos de confiança a quem recorrer.
E quando a criança ainda não fala?
O caso de bebês e crianças muito pequenas representa um desafio adicional. Sem capacidade de relatar verbalmente uma experiência, elas dependem ainda mais da observação dos adultos. A delgada lembra que a prevenção começa desde os primeiros anos de vida, principalmente pela vigilância dos responsáveis e pelo controle sobre quem tem acesso à criança.
Também é necessário observar mudanças que não podem ser automaticamente interpretadas como prova de violência, mas que justificam atenção. “Não existe um sinal isolado que confirme uma violência, mas alguns comportamentos merecem atenção: mudanças bruscas de humor, medo excessivo de determinada pessoa, isolamento, regressão de comportamentos já superados, alterações no sono ou na alimentação, queda no rendimento escolar, conhecimento sobre sexualidade incompatível com a idade e resistência incomum em ficar com determinados adultos”, explica.
Em crianças muito pequenas, segundo a delegada, também podem aparecer choro intenso durante a troca de fraldas ou higiene, dificuldade para sentar e outras alterações físicas ou comportamentais.
O ponto fundamental é não transformar um sinal em diagnóstico. Mudanças de comportamento podem ter diversas causas. A função do adulto é perceber, acolher e buscar ajuda especializada quando houver suspeita.
A criança precisa ser ouvida, não interrogada
Quando uma criança revela uma situação de violência, a reação do adulto pode influenciar profundamente a maneira como ela continuará lidando com o episódio. A orientação é acolher sem demonstrar incredulidade, raiva contra a criança ou culpa. Perguntas insistentes, repetição da narrativa para várias pessoas e tentativas de investigar o caso por conta própria podem aumentar o sofrimento e até prejudicar a apuração.
“O mais importante é acolher a criança, não pressioná-la e buscar imediatamente os órgãos competentes”, afirma Sheila. Em outras palavras, o adulto não precisa se transformar em investigador. Precisa ser uma ponte segura entre a criança e a rede de proteção.
A rede precisa estar preparada
Para Mauricio Cunha, doutor em Políticas Públicas e presidente executivo do ChildFund Brasil, a situação se torna ainda mais grave quando o agressor é justamente alguém que deveria cuidar e proteger.
“Quando o agressor é justamente quem deveria cuidar e proteger, como pais ou responsáveis, a criança se encontra em uma condição de extrema vulnerabilidade e silêncio. A resposta a esse problema exige uma ação coordenada e multissetorial”, destaca.
Essa rede inclui família, escola, serviços de saúde, assistência social, órgãos de segurança, Conselho Tutelar, Ministério Público e organizações comunitárias. Igrejas também podem desempenhar um papel importante, principalmente porque mantêm contato frequente com crianças e famílias.
Para Cunha, o caminho passa pela criação de ambientes nos quais a criança tenha adultos confiáveis a quem recorrer. “Precisamos criar redes de confiança ao redor da criança, espaços onde ela possa se sentir segura para falar e ser ouvida”, afirma.
Ele ressalta que professores, líderes religiosos, agentes comunitários e vizinhos precisam ser preparados para reconhecer sinais de violência e saber como agir. “Mais do que identificar, é preciso agir com responsabilidade, acionando os órgãos competentes e oferecendo acolhimento”, diz.
O papel das igrejas na proteção
Em comunidades cristãs, a responsabilidade ganha uma dimensão adicional. Igrejas reúnem crianças em cultos, escolas bíblicas, acampamentos, retiros, projetos sociais e atividades esportivas. Isso significa que a proteção infantil precisa fazer parte da estrutura institucional, e não depender apenas da boa intenção de um voluntário.
Delegada Sheila defende que igrejas, escolas, clubes e demais instituições adotem protocolos de proteção, capacitem seus colaboradores e estabeleçam mecanismos seguros de denúncia.
“A igreja, assim como a escola, os clubes e toda a comunidade, tem um papel essencial na rede de proteção da infância. Ela pode orientar famílias, promover informação, incentivar a denúncia e acolher vítimas. Mas também precisa investir na prevenção, capacitando líderes e voluntários para identificar sinais de violência e adotar protocolos de proteção”, orienta.
Isso significa estabelecer regras claras sobre acesso às crianças, evitar situações de isolamento, definir procedimentos para receber denúncias e capacitar adultos para agir diante de suspeitas. Proteção infantil não combina com improviso.
O silêncio protege o agressor
Um dos grandes obstáculos no combate à violência infantil é o silêncio. Ele pode surgir por medo, vergonha, dependência financeira, ameaça, manipulação emocional ou simplesmente porque a criança não compreende que aquilo que sofreu é uma violência.
Em alguns casos, a própria família pode desacreditar do relato por confiar no possível agressor. Por isso, informação é uma ferramenta de proteção. Quanto mais adultos souberem identificar sinais e conhecerem os caminhos para denunciar, menores são as chances de uma situação permanecer invisível durante anos.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania reforça que mudanças de comportamento, isolamento e medo excessivo podem estar entre os sinais de violência e orienta a sociedade a denunciar suspeitas.
A denúncia, portanto, não exige que o cidadão tenha certeza absoluta de que um crime aconteceu. Diante de uma suspeita fundamentada ou de uma situação de risco, a orientação é procurar a rede de proteção e deixar a investigação para os órgãos responsáveis.
A importância da prevenção
A prevenção não depende de vigiar crianças a cada segundo nem de transformar o mundo em um lugar de medo. Ela passa por algo mais concreto: conhecer quem convive com os filhos, estabelecer limites, conversar sobre o corpo, observar mudanças de comportamento, criar adultos de referência e agir diante de suspeitas.
Mauricio Cunha resume essa responsabilidade de forma direta: “A proteção começa com o empoderamento da própria criança, mas só se concretiza quando toda a sociedade assume sua responsabilidade coletiva. A violência contra crianças não é um problema privado. Trata-se de uma violação de direitos humanos que exige resposta pública, ética e urgente.”
É justamente aí que a prevenção deixa de ser apenas uma palavra e se transforma em atitude. Crianças não precisam apenas de adultos que as amem. Precisam de adultos atentos, preparados para ouvi-las e dispostos a agir quando algo não estiver certo.
Como agir diante de uma suspeita
1. Acredite e acolha
Se a criança contar algo, mantenha a calma e demonstre que ela fez a coisa certa ao procurar ajuda.
2. Não culpe a vítima
Evite frases como “por que você não contou antes?” ou “por que você deixou acontecer?”. A responsabilidade nunca é da criança.
3. Não pressione por detalhes
Faça apenas o necessário para compreender a situação e procure profissionais capacitados. Evite interrogatórios repetidos.
4. Observe mudanças
Medo de determinadas pessoas, isolamento, agressividade, regressão, alterações no sono ou alimentação e mudanças bruscas de comportamento merecem atenção.
5. Não confronte o possível agressor
Uma tentativa de resolver a situação diretamente pode aumentar o risco para a criança e interferir na investigação.
6. Restrinja situações de risco
Se houver perigo imediato, priorize a segurança da criança e procure ajuda das autoridades competentes.
7. Acione a rede de proteção
Conselho Tutelar, autoridades policiais, serviços de saúde e canais oficiais podem orientar os próximos passos.
8. Não compartilhe imagens ou relatos identificáveis
A exposição da criança nas redes sociais pode provocar novas violações e aumentar seu sofrimento.
9. Igrejas e escolas devem ter protocolos
É importante estabelecer regras sobre acesso às crianças, supervisão, treinamento de voluntários, recebimento de denúncias e encaminhamento dos casos.
10. Não espere a certeza para buscar orientação
A investigação cabe às autoridades. O papel da família e da comunidade é comunicar uma suspeita e proteger a criança.
Para famílias cristãs: cinco princípios de proteção
Ensine que o corpo da criança merece respeito: A educação para proteção começa cedo e deve ser adequada à idade.
Crie um ambiente de escuta: A criança precisa saber que poderá contar algo difícil sem ser ridicularizada ou castigada.
Não confunda confiança com ausência de limites: Amizade, parentesco ou liderança religiosa não eliminam a necessidade de supervisão.
Igreja segura é igreja preparada: Boa intenção não substitui protocolos, capacitação e mecanismos de denúncia.
Proteção é responsabilidade do aduOnde buscar ajuda
O Disque 100, serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra crianças e adolescentes. O governo federal mantém dados e informações atualizadas sobre o serviço. Em situações de risco imediato, também é importante procurar os serviços de emergência e segurança disponíveis na localidade.
NÚMEROS DA VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS
38.986 casos de maus-tratos contra crianças e adolescentes registrados em 2025.
+14,6% foi o crescimento dos registros de maus-tratos em relação a 2024.
+106,1% foi o aumento dos registros de maus-tratos desde 2021.
21.811 registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra crianças em 2025.
14.815 casos de abandono de incapaz registrados em 2025.
1.866 registros de subtração de crianças e adolescentes em 2025.
84.388 casos de estupro e estupro de vulnerável registrados em 2025.
77% das vítimas de estupro e estupro de vulnerável eram menores de 14 anos.
59,2% dos agressores de vítimas de 0 a 13 anos eram familiares.
36,9% eram pessoas conhecidas da vítima.
4.063 vítimas de crimes relacionados à produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil em 2025.
308.077 meninas de até 17 anos vítimas de violência sexual entre 2011 e 2024.
64 por dia é a média de meninas vítimas de violência sexual registrada nesse período.
Os dados do Anuário são referentes aos registros de 2025 e foram divulgados em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.lto: A criança não deve carregar sozinha o peso de reconhecer, evitar ou denunciar uma violência. Cabe aos adultos construir ambientes seguros.
Fonte Comunhão.



