NOTÍCIAS


Pastores no crime: quando a religião é usada pelo tráfico

Da direita à esquerda: pastores Nivaldo de Almeida e Orminda Carlos de Barcelos Almeida, e a filha Rhavenna Barcelos de Almeida – Fot

Por Cristiano Stefenoni

Na manhã da última quinta-feira (16), uma operação da Polícia Civil de Mato Grosso voltou a colocar a relação entre religião e crime organizado no centro do debate nacional. A Operação Fariseus cumpriu mandados contra integrantes de um suposto esquema que utilizava um projeto religioso como fachada para beneficiar membros do Comando Vermelho presos na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá.

Entre os presos estava Rhavenna Barcelos de Almeida, de 24 anos, filha dos pastores Nivaldo de Almeida e Orminda Carlos de Barcelos Almeida (também alvos da operação), conhecida nas redes sociais como “missionária”, além dela ser integrante do projeto religioso Resgatando Vidas, que atua com capelania junto aos detentos da Penitenciária Central do Estado (PCE).

 

Segundo as investigações conduzidas pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), ela integraria uma estrutura responsável por facilitar a comunicação entre criminosos presos e integrantes da facção em liberdade, além de participar da logística de ações determinadas pelo grupo.

As investigações apontam que Rhavenna teria utilizado a imagem de missionária para circular em ambientes religiosos enquanto mantinha vínculos com integrantes da organização criminosa. Ela, que também é designer de sobrancelhas, mantinha um relacionamento íntimo com um líder da facção criminosa Comando Vermelho e usava o próprio salão com fachada para o crime.

A defesa da investigada será representada pela advogada Diana Alves Ribeiro, conhecida por já ter atuado em processos envolvendo integrantes do Comando Vermelho e que chegou a ser presa em 2023 durante outra investigação relacionada à facção.

Embora o caso tenha repercutido nacionalmente, a própria Polícia Civil fez questão de ressaltar que a investigação não aponta participação institucional de igrejas, mas sim o suposto uso de um projeto religioso por pessoas ligadas ao crime organizado. O episódio, entretanto, está longe de ser isolado.

familia trrafico 2

O crescimento da narcorreligião
Nos últimos anos, autoridades, pesquisadores e cientistas da religião passaram a observar um fenômeno que cresce principalmente nas periferias do Rio de Janeiro, mas que já apresenta reflexos em outros estados brasileiros: a apropriação da linguagem evangélica por organizações criminosas.

Bíblias abertas sobre fuzis. Cultos realizados em áreas controladas por facções. Orações antes de confrontos armados. Versículos pintados em muros. Bandeiras de Israel hasteadas em comunidades dominadas pelo tráfico. Líderes do crime que afirmam receber revelações divinas para comandar batalhas.

À primeira vista, as imagens parecem contraditórias. Mas, para estudiosos, elas revelam uma sofisticada estratégia de construção de poder. Durante muitos anos, pesquisadores classificaram esse fenômeno como “narcopentecostalismo”. Hoje, entretanto, parte da academia considera que essa definição já não explica completamente o que acontece nas comunidades dominadas pelo tráfico.

A pastora e cientista da religião Viviane Costa, autora do livro “Traficantes Evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus”, prefere utilizar outro conceito. Para ela, o mais adequado é falar em narcorreligião.

“A presença da religião na estrutura do crime não é algo novo. Eu prefiro usar ‘narcorreligião’ para pensar de forma mais ampla o papel das identidades religiosas no tráfico de drogas do Rio de Janeiro”, explica.

Segundo a pesquisadora, a religião funciona como uma linguagem de legitimação do poder criminoso. Ela ajuda a construir identidade, disciplina interna, códigos morais e até mesmo uma narrativa de missão divina para justificar a ocupação de territórios.

Essa lógica aparece de maneira emblemática no caso de Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido nacionalmente como Peixão, apontado pelas autoridades como um dos principais líderes do Terceiro Comando Puro (TCP).

Viviane Costa relata que, segundo pessoas que conviveram com o traficante e participaram de sua pesquisa de campo, Peixão afirma receber estratégias para suas ações por meio de experiências espirituais.

“Ele diz receber instruções divinas por meio de revelações e visões. Isso, a partir de leituras bíblicas e de instruções espirituais que diz receber no monte ou nas orações feitas em casa. Ele traz essa experiência religiosa e a aplica na estrutura, dinâmica, ética e estética do Complexo de Israel”, afirma Costa.

Essa narrativa, segundo a pesquisadora, ajuda a construir uma imagem de líder escolhido por Deus, fortalecendo sua autoridade diante dos próprios integrantes da facção e dos moradores das comunidades sob seu domínio.

Guerras justificadas
Mas a religião utilizada pelo tráfico possui características bastante específicas. Em vez de enfatizar os ensinamentos do Novo Testamento, como o amor ao próximo, o perdão e a misericórdia, os criminosos recorrem principalmente às histórias de guerra narradas no Antigo Testamento.

“Nos textos do Antigo Testamento, são invocadas imagens de Davi, de Josué, dos guerreiros conquistadores de terras e de promessas dadas por Deus. São homens fortes que invadiram territórios, mataram pessoas e estabeleceram a vitória do Deus de Israel sobre as outras cidades e povos do Antigo Testamento”, explica Viviane Costa.

Essas referências ajudam a construir uma narrativa segundo a qual a conquista de territórios pelo tráfico seria comparável às guerras descritas na Bíblia, oferecendo uma justificativa simbólica para a violência.

O “Complexo de Israel”: quando a Bíblia se transforma em símbolo de domínio
Se existe hoje um território que simboliza a apropriação da linguagem religiosa pelo crime organizado no Brasil, esse lugar é o Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A região reúne comunidades como Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau, todas apontadas pelas forças de segurança como áreas sob influência do Terceiro Comando Puro (TCP).

O nome não surgiu por acaso. Ao longo dos últimos anos, a paisagem urbana foi sendo modificada. Muros passaram a exibir Estrelas de Davi, bandeiras de Israel, versículos bíblicos, imagens de leões, salmos e frases inspiradas no Antigo Testamento. O discurso religioso tornou-se parte da identidade visual da facção.

Segundo investigações e estudos acadêmicos, a utilização desses símbolos acompanha um rígido controle territorial exercido pelo grupo criminoso. Em algumas localidades, moradores relatam que festas religiosas de matriz africana deixaram de acontecer. Há registros de destruição de terreiros, expulsão de praticantes da umbanda e do candomblé e imposição de uma estética considerada “cristã” pelos traficantes.

Da cruz ao fuzil
Quem acompanha essa transformação há décadas é a socióloga Christina Vital da Cunha, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenadora do Laboratório de Estudos em Política, Arte e Religião (LePar), autora do livro Oração de Traficante: uma etnografia e editora da revista Religião & Sociedade.

Em artigo publicado em 2025, ela descreve como acompanhou a evolução simbólica do tráfico nas comunidades cariocas desde os anos 1990. Segundo a pesquisadora, a mudança aconteceu gradualmente. Nos anos 1990 predominavam imagens do catolicismo popular e referências às religiões afro-brasileiras.

Já nos anos 2000, tornou-se comum encontrar muros pintados com a frase: “Jesus é o dono do lugar.” Anos depois, a inscrição mudou. Passou a ser: “Deus é o dono do lugar.” A alteração coincide com uma valorização crescente das narrativas do Antigo Testamento e da simbologia ligada a Israel.

Mas Christina observa que a transformação mais recente revela outra mudança ainda mais significativa. Em 2025, durante trabalhos de campo em comunidades do interior fluminense, ela encontrou pichações com outra frase: “Gus é o dono do lugar.” “Gus” seria uma referência ao apelido de um chefe do tráfico.

Segundo a pesquisadora, a mudança demonstra que o discurso religioso passou a ceder espaço para a glorificação direta do líder criminoso. “O universo simbólico continua importante, mas agora a valorização extrema do indivíduo e do poder econômico supera até mesmo o discurso pentecostal observado anos atrás”, escreveu.

narc

A religião como ferramenta de poder
Apesar da estética religiosa, Christina Vital faz uma ressalva importante. Ela afirma que não existe evidência de um grande movimento de conversão coletiva de traficantes. Na avaliação da pesquisadora, os símbolos religiosos cumprem outra função. Servem para organizar o poder.

Segundo ela, embora bandeiras de Israel, salmos, cruzes, leões e versículos estejam presentes em muitas comunidades controladas pelo tráfico, isso não significa que o objetivo principal das facções seja religioso.

Ao contrário. A religião funciona como um elemento legitimador. Ajuda a construir disciplina interna. Fortalece a identidade do grupo. Cria códigos morais próprios. Produz uma narrativa de “escolhidos de Deus”. Tudo isso contribui para ampliar o controle sobre moradores.

Na prática, especialistas afirmam que se trata de uma tentativa de legitimar o domínio territorial e obter aceitação entre parte da população. Essa estratégia também aparece em ações sociais promovidas nas comunidades.

Pesquisas registram distribuição de brinquedos no Dia das Crianças, presentes no Natal, ovos de Páscoa, cestas básicas, eventos recreativos e até espaços de lazer construídos sob influência da facção. Moradores relatam que há maior controle sobre furtos, brigas e pequenos delitos.

Ao mesmo tempo, descrevem um ambiente marcado pela vigilância constante, medo, restrições à circulação de agentes públicos e punições severas para quem desafia as regras impostas pelo tráfico.

Por que traficantes procuram pastores íntegros?
Se a apropriação da linguagem evangélica por organizações criminosas revela um lado sombrio da relação entre fé e violência, pesquisadores afirmam que existe um aspecto menos conhecido e, ao mesmo tempo, revelador: muitos traficantes distinguem claramente os líderes religiosos que consideram autênticos daqueles que enxergam como aliados do crime.

Essa aparente contradição foi observada pela pastora e cientista da religião Viviane Costa durante anos de pesquisa em comunidades dominadas pelo tráfico. Segundo ela, embora existam casos de igrejas e líderes religiosos que aceitaram recursos provenientes da criminalidade ou mantiveram relações de proximidade com facções, esses não são, necessariamente, os pastores mais respeitados pelos criminosos.

Ao contrário. Os traficantes costumam reservar maior respeito justamente aos líderes que nunca fizeram concessões. Viviane utiliza a expressão “blindagem moral” para definir esse grupo.

“Os reconhecidos assim são os que dão bom testemunho, não se envolvem e não aceitam o dinheiro do tráfico, não escondem armas, não participam da dinâmica do crime. Esses são muito respeitados. São esses ‘homens de Deus’ que eles procuram para orar pela vida deles e pedir proteção para não morrer em um confronto”, explica.

Fé instrumentalizada
Pesquisadores que estudam o tema observam que a religiosidade presente em organizações criminosas não representa, necessariamente, uma experiência de conversão. Na maior parte dos casos, a linguagem religiosa desempenha funções práticas.

Ela ajuda a fortalecer o senso de pertencimento do grupo, estabelece códigos internos de comportamento, cria uma narrativa de proteção divina e oferece uma justificativa moral para a violência. Ao mesmo tempo, essa linguagem contribui para conquistar legitimidade diante dos moradores das comunidades.

Não por acaso, cultos, versículos, louvores e referências bíblicas convivem, muitas vezes, com armas de guerra, barricadas, venda de drogas e confrontos armados. Essa contradição é justamente um dos elementos que despertam maior interesse entre sociólogos, antropólogos e cientistas da religião.

Apesar da crescente presença de símbolos religiosos, Christina Vital da Cunha faz um alerta importante. Segundo ela, seria um erro interpretar o crescimento da chamada “narcorreligião” como um movimento essencialmente religioso. “A criminalidade é, acima de tudo, uma questão econômica”, diz.

Ela acrescenta que, se nos anos 1990 o tráfico buscava ostentar riqueza dentro das comunidades, hoje a lógica é diferente. As facções passaram a investir na ampliação de seus territórios, no fortalecimento de suas redes financeiras, na aproximação com empresários e agentes políticos e em mecanismos para lavar recursos obtidos de forma ilícita.

Ainda há esperança
Ao longo das últimas décadas, milhares de pessoas deixaram o tráfico após experiências de conversão em igrejas evangélicas, comunidades terapêuticas e projetos sociais. Esse fenômeno aparece em diferentes estados brasileiros. Um exemplo recente foi publicado pelo portal Lado B, que contou a história do pastor Sílvio Miguel de Jesus, hoje com 62 anos.

Durante parte da juventude, Miguel viveu do tráfico de drogas. Foi preso diversas vezes, passou mais de quatro anos na prisão e também atuou na Bolívia. Segundo ele, a mudança aconteceu de forma gradual, impulsionada por uma profunda reflexão sobre a própria vida.

Desde 2008, ele ocupa regularmente a Praça Ary Coelho, em Campo Grande (MS), levando uma pequena caixa de som e um microfone para anunciar mensagens cristãs. Hoje, dedica parte do tempo ao atendimento de pessoas em situação de rua e ao apoio a clínicas terapêuticas voltadas à recuperação de dependentes químicos.

Mesmo enfrentando críticas, ameaças e ofensas, afirma que não pretende abandonar a missão. “Servir a Cristo é uma decisão e eu continuo firme porque fiz essa escolha. Minha mensagem é para que a pessoa leia a Bíblia, ore e tome sua própria decisão. Não critico nenhuma religião. O importante é fazer o bem sem olhar a quem”, testemuha.

Linha do tempo | Fé e crime organizado
Anos 1990

Predominam imagens do catolicismo popular e de entidades das religiões afro-brasileiras em comunidades controladas pelo tráfico.

Anos 2000

Muros passam a exibir a frase “Jesus é o dono do lugar”.

Década de 2010

Cresce o uso de versículos bíblicos, cruzes e linguagem pentecostal por facções criminosas.

2017 em diante

Expansão da simbologia ligada a Israel: Estrelas de Davi, bandeiras israelenses, leões e referências a Davi e Josué.

2022

O Complexo de Israel ganha projeção nacional, consolidando o debate sobre a chamada “narcorreligião”.

2025

Christina Vital registra novas pichações em comunidades fluminenses, como “Gus é o dono do lugar”, indicando maior culto à figura do líder criminoso do que ao discurso religioso.

2026

A Operação Fariseus volta a colocar em evidência o uso de projetos religiosos como suposta fachada para favorecer organizações criminosas.

Fonte Comunhão.




17/07/2026 – Net 3 Gospel

COMPARTILHE

SEGUE A @SUARADIO

(67) 98484-8760

souzaemilson437@gmail.com
  1. Sua Rádio    colabore com a Net3 gospel  pix 67 98484 8760

NO AR:
Ao Vivo - NET 3 GOSPEL